domingo, 21 de fevereiro de 2010

O APARENTE FRACASSO DO HOMEM NA HISTÓRIA - II

Quando, como se viu antes, o homem não consegue falar consigo próprio, está a recusar, em toda a profundidade, o uso daquilo que o torna semelhante a Deus, ou seja, o uso da razão, a capacidade de pensar de forma linear, transparente e livre, acima das paixões, sem artifícios, desculpas ou subterfúgios. Esta verificação permite-nos ver o outro lado da existência humana, em que os tons negros das catástrofes decorrentes da violência são substituídos pelos tons cristalinos das grandes realizações humanas portadoras de progresso e desenvolvimento em todos os domínios. É que, além da razão, o homem goza ainda deste extraordinário atributo, que nem sempre apreciou devidamente: a liberdade, a capacidade de ser livre, a possibilidade de ser ele próprio, mesmo quando o corpo está preso por cadeias, quaisquer que elas sejam.

Se é verdade que a liberdade foi tantas vezes perdida e espezinhada nos terríveis ciclos da violência em que a história tem sido fértil, não é menos verdade que foi de igual modo a liberdade que ao longo dos tempos possibilitou a enorme capacidade de o homem ser bom e de realizar coisas extraordinariamente valiosas e positivas. É afinal esse o drama existencial do homem: a possibilidade de, numa opção de liberdade, escolher entre o bem e o mal, entre a violência e a paz, entre a degradação e a sublimidade. A liberdade do homem é a prova irrefutável de que o ser humano, longe de ser um fracasso, constitui antes um êxito, também testemunhável historicamente. Trata-se, afinal de um êxito de Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança. Por isso, o homem participa, embora à sua escala limitada, da imensa liberdade, da incomensurável inteligência e da infinita bondade do Criador.