O sebastianismo político, nas suas mais variadas manifestações, tem caracterizado ao longo dos tempos um certo estrato cultural do país. Tal perspectiva manifesta-se pela ideia difusa de um salvador ou libertador, de um homem forte, lúcido e decidido, enérgico e determinado, capaz de conduzir com segurança a desorganizada casa lusitana, e tem como pano de fundo uma sociedade civil fraca, descrente, passiva e resignada, periodicamente contaminada por um pessimismo generalizado. Esta ideia, que se pode considerar um mito nacional, de contornos muito fluidos, não desapareceu completamente com o estabelecimento da democracia depois da Revolução de 1974. A razão para a persistência deste sentimento poderá estar no facto de a democracia ser recente e, por isso, não se encontrar completamente enraizada e sedimentada, em termos de valores adquiridos pelos cidadãos e de práticas na vida social e na acção política.A fraqueza sociológica e o limitado dinamismo da sociedade civil estão em regra relacionados com o facto de nela não se encontrar suficientemente arreigado um apelo sólido à ideia de liberdade individual e às suas manifestações mais características, como a liberdade de pensamento e de expressão, a liberdade de crítica e a liberdade de acção e empreendimento, cívico e empresarial. Esta debilidade estrutural da sociedade fez desenvolver a tradição, muito consolidada em Portugal, da intervenção generalizada do Estado. Esta ideia do Estado que faz tudo, que trata de tudo, que vigia tudo, que se mete em tudo, gera, por seu turno, a passividade resignada do corpo social, por força da crescente dependência, legal e material, dos cidadãos, das famílias, das instituições sociais e das empresas em relação ao Estado.
Ora, um Estado assim forte, mesmo poderoso, e omnipresente tem meios para condicionar, dominar e controlar em larga escala a sociedade e os cidadãos. Por isso, quem estiver à frente do Estado, com efectivo poder executivo, como acontece entre nós com o Primeiro-Ministro, é uma pessoa muito poderosa. Quem tem esse poder pode tornar-se assim um salvador em potência. Por isso se olha para o topo do poder, onde está o chefe, o comandante, com a esperança de que conduza os cidadãos por bons caminhos, os da redenção cívica, económica e social. Quando tal não acontece, vicejam a perplexidade, a angustia, em suma, o pessimismo, enquanto se pergunta ansiosamente: quando chegará o novo salvador?