O Carnaval é o tempo em que o disfarce atinge o seu maior esplendor em múltiplas e variegadas manifestações. Provavelmente é em Veneza, com o seu refinamento clássico e a sua tradição histórica de rigor artístico na arte de se camuflar que as técnicas carnavalescas atingem o seu mais elevado nível. No entanto, mesmo nas festas de Carnaval mais modestas o objectivo é o mesmo, a diversão através da comicidade, do engano, do disfarce, da máscara. É realmente enorme a intensidade com que a camuflagem se manifesta durante estes breves dias, em que as pessoas fazem notoriamente um esforço para se mostrarem alegres e felizes, pelo menos exteriormente, em que a sátira social e política tem um lugar privilegiado. Assim, poderíamos ser tentados a dizer que no resto do ano, terminado o Carnaval, as pessoas actuariam de modo oposto ou seja, sem disfarces, com sinceridade e transparência. Sabemos, no entanto, que não é assim. O jogo das máscaras, que é o jogo das aparências, aparece afinal no dia a dia, embora de modo diferente, sem o enquadramento despreocupado e folgazão, por vezes burlesco, típico do período carnavalesco. As máscaras são outras, mas estão lá e funcionam da mesma maneira, ou seja, visam ocultar a realidade. São as máscaras dos que exibem sinais exteriores de riqueza sem terem meios sólidos para isso, dos que mostram harmonia e entendimento, quando se encontram em conflito, bem como dos que aparentam ser amáveis e cooperantes quando, afinal, actuam traiçoeiramente.
Porém, é na acção política que, nos tempos que correm, mais vicejam estes jogos de enganos. A sinceridade na comunicação é substituída por sofismas e habilidades retóricas. As medidas de política consistentes e fundamentadas são encobertas por decisões subrepticiamente enganadoras. Os indicadores económicos e financeiros são transmudados mediante uma cuidadosa engenharia interpretativa. A gravidade desta situação está e que, enquanto no Carnaval o jogo das máscaras é transitório, na vida social e política tende a ser duradouro. Será possível, no entanto, camuflar a realidade de modo permanente?