A recente revelação pelo semanário Sol do teor de algumas escutas telefónicas realizadas no âmbito do processo «Face Oculta» reavivou e ampliou o debate sobre a liberdade de informação no nosso país e as alegadas tentativas governamentais de condicionamento dessa liberdade. Não parece haver dúvidas de que se trata de um problema real, pois é manifesto que o Primeiro-Ministro José Sócrates se dá mal com as críticas e convive com dificuldade com o jornalismo independente. O problema, porém, é mais vasto, uma vez que há várias situações em que nos podemos fundamentar para afirmar que nem tudo está bem em matéria de liberdade de expressão em Portugal.Antes de mais, há razões sociológicas, que têm que ver com as características e o modo de ser dos portugueses, porventura agravados na actual conjuntura política. Há uma tendência para os cidadãos se acomodarem, se conformarem, talvez se intimidarem, mesmo perante evidentes abusos de poder. De facto, a participação cívica é escassa e pouco dinâmica e os debates políticos e sociais, mesmo nas televisões, nem sempre são suficientemente esclarecedores. De resto, a qualidade de alguns comentadores políticos não é famosa, quer em termos de preparação pessoal, quer no respeitante à sua capacidade de análise e de interpretação dos acontecimentos.
Por outro lado, há razões culturais significativas. Os portugueses lêem pouco os jornais e o grau de iliteracia ainda é bastante elevado. Os jornais, por seu turno, embora sejam formalmente independentes, confundem muitas vezes informação (objectiva) com opinião (subjectiva), além de que o contraditório nem sempre tem lugar. Alguns desses periódicos acabam na prática por estar mais ou menos «alinhados» com os pontos de vista favoráveis ao Governo. Estas circunstâncias não estimulam o espírito crítico e o escrutínio da acção governamental. Algo de semelhante se passa com as televisões, em especial com as estações públicas, que descuram claramente as exigências próprias de um serviço público.
Finalmente, há razões políticas, já que o Governo, em especial o Primeiro-Ministro, resiste mal à tentação de influenciar, de uma maneira ou de outra, os órgãos de informação. Por isso, têm sido referidas numerosas situações em que ocorreram, de facto, os mais variados tipos de pressões, directas ou indirectas, sobre os meios de comunicação social. Os casos do Jornal de Sexta-feira da TVI, bem como dos seus responsáveis afastados (Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes), do director do Público (José Manuel Fernandes), que também cessou funções, do jornalista Mário Crespo, da SIC, ou do semanário Sol, bem como das acções judiciais intentadas contra alguns jornalistas, são apenas os mais conhecidos e mediáticos, mas representam a ponta de um perigoso iceberg das tendências políticas de condicionamento ou mesmo silenciamento dos autores de informação desfavorável ao Governo.