segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A UCRÂNIA NA ENCRUZILHADA DA EUROPA

O resultado das eleições de 7 de Fevereiro mostrou uma vez mais que a Ucrânia é um país praticamente partido ao meio, como se integrasse duas nações diferentes. O vencedor, Viktor Iakunovitch, partidário de maior aproximação à Rússia, que nas eleições de 2005 fora obrigado judicialmente, por motivo de irregularidades eleitorais, a ceder o seu lugar a Viktor Iuchenko, agora derrotado logo à primeira volta, superou por pouca margem a primeira-ministra Iulia Timochenko.

Todos os comentadores têm sido de opinião de que o período entre as duas eleições constituiu um tempo perdido, uma vez que tudo se agravou no país (as relações com a vizinha Rússia, com efeitos na «guerra do gás», a instabilidade política e o péssimo desempenho da economia), sem ter havido grandes progressos na aproximação à União Europeia. Estes acontecimentos configuraram assim o fracasso da chamada «revolução laranja», protagonizada pelos dois políticos agora derrotados, mas rivais entre si, que têm defendido maior aproximação à Europa e até a integração na NATO.

A Ucrânia é de certo modo vítima das vicissitudes da sua história, que em geral lhe foram bastante adversas. Assim, a região ocidental, por força das suas tradicionais ligações à Polónia e antes ao Império Austro-Húngaro, está mais próxima dos valores especificamente europeus. Por outro lado, muitos cristãos, embora de rito bizantino ou oriental, integram a Igreja Católica, através da Igreja Greco-Católica da Ucrânia ou Igreja Uniata. Finalmente, nesta área predominam os partidos políticos mais pró-ocidentais. No entanto, está economicamente menos desenvolvida.

Por seu turno, a região oriental, em que a grande maioria da população é cristã ortodoxa, está tradicionalmente mais influenciada pela cultura russa, pois fez parte do Império russo e nela existe uma forte minoria de habitantes de língua russa. Por outro lado, a economia beneficia da existência de grandes empresas industriais herdadas da antiga União Soviética. Por isso, são aqui maioritários os partidos políticos que preconizam maior proximidade com a Rússia, embora não rejeitem os laços com a União Europeia.

Parece evidente que estas circunstâncias não aconselham a insistência num simples governo de maioria, sem dúvida democrático, mas que tenderia a reavivar as diferenças culturais e políticas, como tem acontecido, e a facilitar assim um alto grau de conflitualidade político-partidária, que tem originado a instabilidade e a ineficácia dos governos. Os exemplos da Irlanda do Norte e da Suíça, em que todos os partidos políticos participam na governação, poderia ser uma fórmula apropriada para reforçar a frágil coesão nacional da Ucrânia e conseguir um maior grau de governabilidade do país. É duvidoso, no entanto, que os políticos ucranianos, de um e de outro lado, sejam suficientemente esclarecidos para actuarem nesse sentido, como se tem visto no passado.