A
propósito da polémica, ainda em curso, sobre a recente publicação, pelo semanário Sol, de algumas escutas telefónicas realizadas no âmbito do processo «Face Oculta», cujo conteúdo parece bastante comprometedor para as pessoa escutadas, o Doutor Manuel Costa Andrade, conceituado professor e investigador de direito penal, publicou no jornal Público, de 19 de Fevereiro, um lúcido, corajoso e bem fundamentado artigo, em que defende a legitimidade da publicação de escutas, atendendo aos diversos interesses, públicos e privados, em jogo, desde que cumpridos certos condicionalismos, que no caso se terão porventura verificado.
propósito da polémica, ainda em curso, sobre a recente publicação, pelo semanário Sol, de algumas escutas telefónicas realizadas no âmbito do processo «Face Oculta», cujo conteúdo parece bastante comprometedor para as pessoa escutadas, o Doutor Manuel Costa Andrade, conceituado professor e investigador de direito penal, publicou no jornal Público, de 19 de Fevereiro, um lúcido, corajoso e bem fundamentado artigo, em que defende a legitimidade da publicação de escutas, atendendo aos diversos interesses, públicos e privados, em jogo, desde que cumpridos certos condicionalismos, que no caso se terão porventura verificado.Nesse sentido, dado o teor daquelas escutas, pode considerar-se que a sua revelação constitui um verdadeiro acto de higiene cultural, social e sobretudo política. O que foi dito pelos escutados revela muito sobre a personalidade e o carácter dessas pessoas, que têm ocupado altos lugares no aparelho do Estado e em grandes empresas ligadas ao poder político ou por ele controladas. Numa linguagem por vezes desbragada, tais conversas revelam, em traços bastante negativos, como são realmente «por dentro» essas pessoas que, de uma maneira ou de outra, dirigem os destinos dos portugueses.
Estão bem à vista os sombrios traços de carácter que as escutas revelam ou indiciam. a) Aparece, antes de mais, uma atitude de tecnocracia pura, em que o pragm
atismo é levado aos seus limites, já em formulação maquiavélica, em que os fins justificam o uso de quaisquer meios. b) Manifesta-se também um oportunismo cínico na actuação, em que a subserviência ao chefe é a linha orientadora das diligências, das manobras e das intrigas. c) Evidencia-se igualmente um completo amoralismo, através da insensibilidade ética, do descaramento moral e da ausência de sentido cívico. d) Patenteia-se ainda uma desmedida ambição, pelo que o poder e a influência são usados em força, com dureza, sem peso nem medida. e) Finalmente, sobressai uma enorme arrogância, na ideia de que tudo é possível, tudo é permitido, que o exercício do poder não tem limites.
atismo é levado aos seus limites, já em formulação maquiavélica, em que os fins justificam o uso de quaisquer meios. b) Manifesta-se também um oportunismo cínico na actuação, em que a subserviência ao chefe é a linha orientadora das diligências, das manobras e das intrigas. c) Evidencia-se igualmente um completo amoralismo, através da insensibilidade ética, do descaramento moral e da ausência de sentido cívico. d) Patenteia-se ainda uma desmedida ambição, pelo que o poder e a influência são usados em força, com dureza, sem peso nem medida. e) Finalmente, sobressai uma enorme arrogância, na ideia de que tudo é possível, tudo é permitido, que o exercício do poder não tem limites.Se são pessoas com estas características de personalidade e carácter que no Estado ocupam postos de comando relevantes, em lugares onde deviam estar cidadãos de grande qualidade cívica, com sentido de justiça e de equidade, sincera e devotadamente dedicados ao serviço público, amigos intransigentes da verdade, então só pessoas doentiamente optimistas é que podem negar que Portugal se encontra num terrível plano inclinado, em que a crise moral e cívica é a maior, a mais perversa, a mais perigosa e a mais devastadora de todas as crises.