Quando se diz que os políticos deviam cuidar mais do discurso não se quer fazer referência aos aspectos formais ou instrumentais da comunicação. É evidente que um político deve saber falar razoavelmente bem, de modo claro, preciso e perceptível, articulando com nitidez as palavras e ligando correctamente as diversas expressões que compõem o discurso. Sem aperfeiçoar os aspectos formais da comunicação, um político pode ter sérias dificuldades em transmitir de modo adequado as suas ideias e propostas, como amargamente tem experimentado Manuela Ferreira Leite e foi evidente no decurso das campanhas eleitorais realizadas no verão de 2009.Este cuidado a ter com o discurso refere-se mais especificamente aos aspectos de fundo, ao conteúdo da comunicação, cuja primeira necessidade é a coerência, ou seja, a constância da palavra. Se esta exigência de rigor substantivo não for cumprida, é muito fácil, como temos visto na luta política corrente, os políticos serem confrontados com declarações anteriores em que afirmaram o contrário do que agora defendem. Ser apanhado em contradição consigo próprio, se na altura devida a mudança de opinião, que é natural e própria da inteligência humana, não foi publicamente esclarecida, é das piores coisas que podem acontecer aos políticos.
De facto, poucas coisas desacreditam tanto a acção política como as incoerências e contradições, que fazem os políticos parecerem cata-ventos. Tais situações minam fortemente a confiança que deve existir em quem se propõe governar o país ou se encontra já investido nessa responsabilidade. Os cidadãos podem ficar sem saber quando falam verdade, qual é de facto o seu pensamento, que se propõem efectivamente fazer. Esta exigência implica que, ao contrário do que tantas vezes acontece, os responsáveis políticos não falem ao sabor das circunstâncias, não se pronunciem conforme a força do vento que sopra o que parece «politicamente correcto», não sejam oportunistas, mas adoptem um discurso sincero, coerente, homogéneo, sólido, honesto, baseado nas suas convicções, sem truques, sofismas ou arranjos retóricos de ocasião.