sábado, 6 de fevereiro de 2010

O VÍCIO DE DESDRAMATIZAR OS PROBLEMAS

É muito frequente na linguagem política, tal como é veiculada através da comunicação pessoal, a utilização, de forma enfática, da expressão «desdramatizar», quando um responsável político, em especial um membro do Governo, é questionado sobre situações problemáticas, como um indicador económico ou financeiro menos positivo, o agravamento do desemprego, o desempenho da economia, o insucesso escolar, a diminuição das receitas públicas ou das exportações, o aumento da despesa do Estado, o acréscimo da criminalidade violenta, as críticas à acção política e assim por diante. Em tais circunstâncias, o responsável político foge a encarar de frente as questões, ou seja, evita responder com sinceridade, explicando de forma objectiva e pedagógica os problemas, sem os distorcer nem camuflar. Pelo contrário, num golpe de habilidade retórica «desdramatiza» as más notícias, isto é, relativiza o seu significado ou nega mesmo a sua relevância, no contexto de um cenário de desculpabilização a todo o custo.

Vistas bem as coisas, esta forma de relativizar os problemas, «desdramatizando» os acontecimentos negativos, acaba por ter consequências perversas já que, face à intenção do discurso, o significado deste truque informativo, pois é disso que se trata, vem a ser a efectiva negação da realidade. Esta forma de actuar visa, afinal, iludir a importância das questões, desviar as atenções da gravidade das mesmas e disfarçar os seus efeitos na actividade política e na vida económica. Isto significa que uma tal atitude não anda longe de uma autêntica mentira, de um embuste verdadeiro, de um logro indiscutível. De qualquer modo, semelhante processo de comunicação impossibilita o diálogo construtivo sobre problemas importantes da governação e traduz, da parte do poder político, a fuga directa a uma das suas principais responsabilidades, ou seja, informar os cidadãos, em tempo devido e de forma correcta, sobre a natureza e a dimensão dos reais problemas do país.