Quando alguém com alguma tendência para o agnosticismo considera os dramas vividos pela humanidade ao longo da sua história conturbada, por vezes trágica, é facilmente impressionado pelo lado mais negativo desse registo, que espelha os resultados da acção humana no seu pior. E esse pior é a violência sob tantas formas, filha dilecta da ambição obcecada do homem pelo poder e pelo domínio, os quais, por seu turno, são consequência inevitável do orgulho e da soberba, em que o homem foge de tudo e de todos e se refugia em si próprio, mas sem sequer falar consigo mesmo, como se estivesse encerrado numa fortaleza inexpugnável. Esta tendência para o domínio dos outros é tão forte que se pode dizer que o vírus do ditador pode existir no melhor democrata. Esta tragédia radica na incapacidade que por vezes o homem tem de falar consigo próprio, projectando o seu eu de tal maneira que consiga de facto dialogar consigo, tornando-se um verdadeiro interlocutor de si mesmo, por aplicação do sábio princípio do grande filósofo ateniense do «conhece-te a ti mesmo». É este exercício mental que permite a avaliação pessoal, a autocrítica, susceptível de clarificar tudo à sua volta. Sem autocrítica não há forma intelectualmente honesta de exercer o poder de forma contida, com consideração pelos poderes e interesses legítimos dos outros. É essa atenção pelos outros que permite a paz e a harmonia. A violência, qualquer que seja a sua forma (física, legal, económica, intelectual ou emocional), bem como a sua manifestação e amplitude, é sempre consequência de no exercício do poder ser ultrapassada a fronteira, que lhe baliza os limites e impõe o respeito pelos outros.