quinta-feira, 13 de maio de 2010

A VISITA DO PAPA SOB O SIGNO DA SABEDORIA

A sabedoria exprime, em geral, a busca da percepção e da captação intelectual do que se considera bom, verdadeiro e justo. Implica, por isso, o bom uso, de forma equilibrada e sensata, das faculdades cognitivas, de modo a ser possível evitar os erros, a confusão de ideias, as incoerências e as contradições. Isto quer dizer que a sabedoria tende a levar-nos ao cerne das coisas, à sua essência, sabendo nós que, como dizia um poeta, «por dentro das coisas é que as coisas são». No entanto, o caminho da sabedoria pode não ser fácil, pois exige esforço, trabalho e persistência.

Por um lado, o conhecimento adequado das coisas reclama estudo, a que muitas pessoas não estão habituadas ou para o qual não estão disponíveis, sobretudo quando se esquecem de que é necessário estudar durante toda a vida, embora, naturalmente, com intensidades variáveis ao longo dos anos. Por outro lado, o estudo deve ser completado pelo discernimento, que se baseia na reflexão, o que permite consolidar e ampliar os conhecimentos adquiridos. Finalmente, tudo deve ser temperado pela perspicácia, que facilita a compreensão dos meandros mais delicados e subtis dos dados conhecidos.

É a sabedoria que permite que a fé seja robusta e intelectualmente estruturada, não baseada numa simples adesão passiva a convenções, hábitos e práticas, ideias e sentimentos, vindos de trás, por assim dizer trazidos por arrasto pelas tradições, sem um juízo crítico e valorativo da sua razão de ser e da sua adequação ao nosso actual modo de pensar e de viver. É a sabedoria que proporciona uma fé consciente e lúcida, baseada no conhecimento das Sagradas Escrituras, através da sua leitura pessoal, hábito que não está muito generalizado na rotina dos cristãos católicos. É a sabedoria que nos mostra que a essência do cristianismo é Cristo Salvador e a doutrina evangélica que, como Verbo de Deus, nos legou para sempre.

Todo o trabalho intelectual realizado e toda a investigação teológica desenvolvida por Joseph Ratzinger, quer como académico e professor, quer como Cardeal e agora como Papa, têm estado sempre subordinados ao grande objectivo e à permanente preocupação de contribuir para a articulação entre a razão e a fé. Mesmo os mistérios mais profundos da fé podem estribar-se em contributos da razão, em ideias e registos que a nossa inteligência pode proporcionar, clarificando e facilitando desse modo a «adesão pessoal íntima» em que se traduz o acto de fé. Nas se trata de racionalizar a fé, mas de, através da sabedoria, a tornar mais perceptível e inteligível pelas nossas naturais capacidades cognitivas.