A rotina e o hábito tendem por vezes a alterar ou a desvalorizar o sentido próprio das comemorações. No caso do dia 1 de Maio, nota-se haver um acento tónico predominante, porventura excessivo, na perspectiva histórica e sociológica do acontecimento. De qualquer modo, não é exagero nem figura de retórica falar na emancipação dos trabalhadores que se verificou, sobretudo nos últimos dois séculos. Basta recordar as terríveis condições de trabalho que existiam outrora e se agravaram com o início da industrialização no século XIX, praticamente em todos os aspectos: nos baixos salários auferidos, nos prolongados horários de trabalho praticados, no duro regime de trabalho das mulheres e dos menores, na gritante precaridade das condições de segurança e higiene do trabalho e na ausência de protecção social. Em termos de retrospectiva histórica, custa-nos hoje a crer como foi possível uma situação tão dramaticamente penosa e injusta ter-se prolongado durante tanto tempo, como foi possível que políticos e empresários tivessem estado tão indiferentes às duras condições de vida dos trabalhadores, como foi possível que a mensagem cristã de justiça e solidariedade, inserida nos Evangelhos, tivesse tido tão pouco efeito na superação do egoísmo económico e da indiferença social. O pior é que essa cultura de desprezo social não se extinguiu, mas ainda se manifesta de quando em vez nos dias de hoje.
A comemoração de hoje faz-nos também lembrar que há uma perspectiva axiológica e filosófica no modo de considerarmos o dia do trabalhador. Trata-se neste caso, muito justamente, de realçar o valor do próprio trabalho para cada um de nós e para a sociedade no seu conjunto. Esse valor manifesta-se de três maneiras.
Por um lado, o trabalho constitui um factor de liberdade para o homem. Com efeito, ao trabalhar o homem liberta-se da ociosidade; ao auferir um salário, que lhe proporciona rendimento, liberta-se da necessidade e pode escapar às malhas da pobreza; ao exercer uma actividade profissional, reduz, através da aprendizagem e da formação, a sua ignorância e impreparação. Por outro lado, o trabalho é também um factor de solidariedade, já que cada vez mais os trabalhadores são inseridos, a vários níveis, em comunidades laborais interactivas. Finalmente, o trabalho constitui um importante factor de produção, ou seja, um eixo fundamental da actividade económica, de onde decorre a riqueza de um país, que torna possível a redistribuição de rendimento entre os cidadãos, dando assim corpo às exigências de justiça social.