domingo, 9 de maio de 2010

O HOMEM E A SUA SOLIDÃO

Na nossa época, a globalização ou mundialização da vida humana praticamente em todos os domínios tem facilitado a interacção de pessoas, grupos e comunidades, como o comprova o incremento das acções de apoio comunitário de tipo assistencial ou humanitário, a expansão da partilha da informação, o aumento da oferta diversificada de programas de televisão, o desenvolvimento das redes sociais na Internet, bem como os movimentos e as práticas com objectivos análogos. Nesse aspecto, seríamos tentados a afirmar que os homens estão hoje mais próximos uns dos outros, mais interligados, mais acompanhados do que nunca.

Tudo isto, porém, não impede que haja momentos e situações em que o homem se confronta com uma sensação de vazio, isolamento ou abandono, em que se vê perante uma certa solidão. No meio da catadupa de tanta informação contraditória, a cultura relativista que tantas vezes a domina, pode colocá-lo perante dúvidas sérias, a ponto de já não saber em que deve acreditar.

Os problemas que têm surgido no funcionamento das democracias políticas nas sociedades mais desenvolvidas tem provocado o aparecimento de sentimentos de desilusão perante as políticas praticadas e a qualidade das respectivas lideranças. O Estado e a acção política nem sempre inspiram suficiente confiança. Por seu turno, o consumismo, o utilitarismo, o pragmatismo e o oportunismo que invadiram as práticas sociais dão facilmente origem a uma sensação de que já não se pode contar tanto com os amigos, eles próprios sujeitos a pressões sociais e profissionais que prejudicam a manutenção ou o desenvolvimento de anteriores relacionamentos. Por outro lado, a profunda secularização das sociedades europeias aprofundou o fosso que tem vindo a separar as pessoas das raízes originárias da cultura cristã.

Como vencer um adversário tão perigoso como pode ser a sensação de estar isolado dos outros, invadido pela solidão? Estão à vista duas saídas, autênticas vias de escape, dois caminhos que permitirão evitar a auto-reclusão, que pode perturbar fortemente a personalidade de cada um.

No plano imanente, do mundo e da sociedade em que vivemos, está ao alcance de cada um seguir o sábio conselho de Saint-Exupéry, de que «ninguém é uma ilha», recusando-se a ser isso mesmo, agarrando-se às relações sociais a que inevitavelmente está ligado, aceitando a realidade de que cada um dos outros é sempre um seu próximo. No domínio transcendente, bastará fazer um esforço para ter a noção da presença e da proximidade permanentes de Deus. Se o espírito de cada um estiver sinceramente aberto a essa presença inspiradora, ainda que silenciosa, poderá descobrir que Deus, afinal, é um verdadeiro amigo e um companheiro com quem se pode contar. Assim, não poderá haver lugar para a solidão.