Uma das razões porque não é fácil os homens entenderem-se bem está em que é mais difícil do que parece conhecerem-se bem uns aos outros. O nosso conhecimento pessoal aprofundado é possível porque, através da introspecção, podemos penetrar no recôndito do nosso eu, perscrutar o segredo das nossas ideias e emoções, bem como ter a noção das nossas interacções psicossomáticas.Relativamente aos outros, porém, as nossas observações têm que ser cuidadosamente registadas, avaliadas e interpretadas, eventualmente corrigidas, pois corremos facilmente o risco de nos enganarmos e de fazermos juízos errados. A enorme riqueza e complexidade do eu, da personalidade de cada um, não é facilmente perceptível, inteligível e compreensível, mesmo que nos baseemos em depoimentos pessoais dos nossos interlocutores, ainda que se trate de verdadeiras confissões. Para já, não temos a certeza de que quem nos fala captou bem e entendeu correctamente os seus próprios movimentos interiores.
Por outro lado, todos nós estamos sujeitos à lei natural da mudança, que atinge todas as nossas faculdades físicas, sensoriais, intelectuais e espirituais. Essas mudanças, que vão ocorrendo com o decurso do tempo, nem sempre são bem captáveis tal como efectivamente se manifestam. Podemos avaliar de forma errada pelo que conhecíamos antes das mudanças se terem verificado. Por isso, as relações pessoais, familiares e sociais podem apresentar surpresas para quem não está atento a essas alterações, que podem ser apenas interiores, unicamente comportamentais ou ambas as coisas.
A concepção cristã dos homens como filhos de Deus e, desse modo, como irmãos entre si, face ao Criador, pode ajudar, no entanto, a ultrapassar algumas destas dificuldades e a resolver alguns dos mistérios que caracterizam a natureza humana e que exprimem um certo grau, por vezes elevado, de incognoscibilidade dos seres humanos entre si.