Pode não ser fácil falar deste dia, em que se comemora um acontecimento crucial para a difusão do cristianismo nascente, ou seja, aquele em que os apóstolos e discípulos de Jesus receberam o profundo impacte decorrente do influxo do Espírito Santo, de tal modo que, após esse dia tão marcante, nada foi como tinha sido antes. A razão para esta dificuldade pode estar no facto de ao longo do tempo a prática cristã se ter emaranhado em tantos pormenores e detalhes secundários, em tantos e variados hábitos devocionais, de certo modo marginais, que por vezes pouca atenção é dada àquilo que que constitui o cerne, o centro e o fundamento último do próprio cristianismo.Tal como em muitas circunstâncias parece falar-se pouco de Cristo, em muitas outras ocasiões ainda se fala menos do Espírito Santo. E, no entanto, estas duas Pessoas de Deus são, por assim dizer, as mais «activas» e «invasivas» no seu permanente relacionamento com os homens.
A acção do Espírito Santo concretiza-se naquilo que é conhecido como os seus dons. São várias as versões disponíveis quanto ao seu número e à caracterização da sua natureza, mas podemos resumir simplificadamente dizendo que eles actuam sobre as duas grandes faculdades do homem, que exprimem a sua liberdade e autonomia pessoal, ou seja, a inteligência e a vontade. É com estas duas «armas que o ser humano se afirma como tal, perante si próprio e perante os outros homens.
Podemos exprimir essa síntese afirmando que há uma série de dons que permitem ao homem ser dotado de sabedoria. Esta afirma-se e desenvolve-se através de um conjunto de actividades cognitivas, em que o conhecimento e o discernimento têm um papel fundamental. Com a sabedoria, o ser humano fica mais esclarecido, por assim dizer «iluminado», o que lhe permite conhecer-se melhor a si mesmo, aos outros e ao conjunto do universo, bem como a ter uma perspectiva mais inteligente e lúcida do seu relacionamento com Deus. Tudo isto vem a corresponder àquilo que é fulcral na vida humana, tanto individual, como colectiva, a informação. A «ajuda» do Espírito Santo só pode alargar, enriquecer e consolidar a informação conseguida por cada um de nós.
Um outro conjunto de dons dirige-se especificamente à vontade do homem e permite-lhe realizar uma missão, já que cada ser humano traz inscrita na sua natureza uma vocação para agir e interagir de forma específica, para realizar e concretizar aquele enorme painel de possibilidades e de responsabilidades que a sabedoria lhe vai proporcionando ao longo da vida. Isto vem a corresponder àquilo que também é essencial ao ser humano, a acção. O «apoio» do Espírito Santo só pode reforçar e tornar mais esclarecida e fundamentada a acção que cada um de nós é chamado a realizar no percurso da sua vida.