quarta-feira, 26 de maio de 2010

MEDIDAS DE POLÍTICA - UMA PANACEIA?

De um modo geral, os políticos, tanto do governo, como da oposição, tendem a viver dominados pela ideia de que tudo se resolve com «novas medidas». Para o efeito, basta tomar uma decisão, ainda que não muito aprofundada nem discutida (o que é preciso é decidir), um pacote financeiro à medida (não há problemas com a despesa) e, eventualmente, um diploma legislativo (é «facílimo» fazer leis). Por isso, quando tomam medidas os políticos ficam como que deslumbrados e vêm para a televisão anunciá-las, por vezes com grandes parangonas e considerável aparato, e com isso fazem uma espécie de auto-elogio público, como se dissessem com ar triunfante: «estão a ver como somos bons?».

Por isso, pouco se fala na necessidade de gerir bem a aplicação das numerosas medidas que vão sendo tomadas e de controlar com rigor a sua execução. Acabada a festa mediática dos anúncios, segue-se, muitas vezes, a rotina e a indiferença, fruto de uma certa incapacidade de gestão, perante a aplicação concreta, no terreno, das medidas adoptadas. Tais atitudes manifestam, da parte dos responsáveis políticos, falta de sentido de controlo da execução das medidas, que não tem carga mediática e exige muito trabalho e disciplina aos vários níveis da hierarquia do Estado.

Se os resultados obtidos ficarem longe das previsões tão entusiasticamente proclamadas, como acontece com frequência, onde estará a falta, onde se situará o elo mais fraco? Estará, obviamente, no elemento humano, nos muitos milhares de agentes e de funcionários da administração central, da administração autárquica, dos institutos públicos e fundos autónomos, bem como das empresas públicas ou comparticipadas pelo Estado. De facto, a boa gestão dos recursos humanos da gigantesca máquina do Estado exige um tipo de trabalho, árduo e firme, esclarecido e atento, persistente no dia a dia, ao mesmo tempo que discreto, mesmo oculto, que não se encaixa bem na obsessão mediática das luzes de ribalta e do brilho das festas e das inaugurações.

É aí, no deficiente, por vezes inexistente, controlo dessa máquina administrativa enorme, mas onde estão os que executam as medidas de política, que começam as falhas que podem conduzir ao atraso, ao desvio ou mesmo ao fracasso das medidas anunciadas com tanto fragor e de modo altissonante. O problema é que os políticos mediáticos, que querem estar sempre sob a luz dos holofotes, não têm estado de espírito, nem motivação, nem disciplina funcional, nem tempo para essa actividade escondida e apagada, mas absolutamente fundamental, de controlar com rigor o bom funcionamento da administração e dos serviços, a cuja porta milhões de cidadãos vêm bater todos os dias.

É aí que se perdem ou ganham as batalhas da produtividade económica, da eficiência governativa e do desenvolvimento da colectividade. Tudo isto significa que o paradigma dominante da governação precisa de ser modificado. Mas, perante o que vemos e ouvimos todos os dias, será possível uma tal mudança? Teremos capacidade para uma revolução cultural de tal amplitude, em que as cigarras se transformam em formigas?