Ao fim de 34 anos repetiu-se o cenário de um Parlamento em que nenhum dos partidos dispõe de maioria (absoluta) saída das eleições legislativas. Este ponto, só por si, parece abonar a favor do sistema britânico dos círculos uninominais, que goza de larga tradição, baseada na ideia do voto directo dos deputados. No entanto, nos últimos tempos este método tem vindo a ser crescentemente posto em causa. E parece haver razões para isso.Com efeito, o Partido Conservador, que ganhou com 36% dos votos obteve 307 assentos, ou seja, menos 19 do que a maioria (326). No entanto, nas eleições de 2005 o Partido Trabalhista, com uma percentagem de votos semelhante, tinha conseguido quase 345 lugares. Por outro lado, o Partido Liberal Democrata, que registou 23% dos votos, obteve apenas 57 deputados, a uma enorme distância dos trabalhistas que, com 29% dos sufrágios, asseguraram 258 mandatos. Estas manifestas distorções do registo eleitoral, para nós surpreendentes e incompreensíveis, têm que ver com o sistema uninominal em si, que favorece os dois maiores partidos e também com o modo como estão definidos os círculos eleitorais, que tende a beneficiar o Partido Trabalhista. Por isso, o Partido Liberal Democrata tem exigido e continua a reclamar a mudança do sistema eleitoral.
O resultado das eleições suscitou vários tipos de comentários a exprimir preocupação pela governabilidade do país, dado haver pouca tradição de governos de coligação. Por isso, é de salientar o bom senso político e o sentido de oportunidade do líder conservador, David Cameron que, na sua primeira intervenção, fez com toda a clareza uma proposta bastante abrangente de acordo político com os liberais democratas tendo em vista a constituição de um governo estável. Cameron recusou assim, e bem, a aventura de um governo minoritário, que estaria fragilizado à partida e que daria azo a um período conturbado de instabilidade política, incompatível com os graves problemas económicos e financeiros de que Grã-Bretanha também padece.
Este facto, que exprime a maturidade da democracia e da actividade política na ilhas britânicas faz lembrar o que aconteceu na anterior legislatura na Alemanha, em que os dois maiores partidos (democratas cristãos e sociais democratas), face aos resultados eleitorais inconcludentes, governaram em coligação durante quatro anos, com Angela Merkel como chanceler.
Ao mesmo tempo, não podemos deixar de salientar como estes exemplos de capacidade de realizar acordos políticos com os adversários fazem um preocupante contraste, no nosso país, com o procedimento do secretário-geral do Partido Socialista, José Sócrates, que com os seus escassos 36% de votos nas eleições de Setembro de 2009, preferiu governar «orgulhosamente só», ou seja, pondo os interesses partidários à frente do interesse nacional, com os calamitosos resultados que estão à vista.