A pergunta é certamente provocatória e a alguns pode parecer despropositada, exagerada ou mesmo absurda, mas quem o afirma, num artigo publicado no jornal Público no dia 30 de Abril, é o insuspeito Prof. Luís Campos e Cunha, eminente académico, que foi Ministro das Finanças durante os primeiros meses do I Governo de José Sócrates, de onde saiu, segundo consta, por ser contra as tendências despesistas do Executivo.Titanic era o navio inafundável, segundo as autoridades. Tal como Portugal. Mas, na sua primeira viagem, encontrou um pequeno problema e afundou-se, por incúria do comandante. Tal como Portugal.
Está à vista a gravidade dos problemas com que se debate o país, tanto pelas comprovadas dificuldades económicas e financeiras, que estrangulam o seu desenvolvimento, como pelo estado de negação com que o Governo actua obstinadamente, sem que se vislumbre qualquer possibilidade de mudança de orientação.
Face aos sinais evidentes dos mercados, face às dúvidas que se avolumavam, como reagiu o Governo? Fazendo de conta que não era nada com ele e nunca se ouviu o primeiro-ministro a reafirmar de forma convincente o comprometimento político com a estabilidade financeira do Estado. Quanto aos actos, foi ainda pior, porque prosseguiu com as grandes obras públicas de megalómano, aprovando o contrato para o TGV-Madrid, anunciando mais duas centrais fotovoltaicas e (...) assinando o contrato da terceira auto-estrada Lisboa-Porto. Tanto erro de política orçamental ultrapassa a incompetência óbvia e legitima outras suspeitas.
Significa isto que não há possibilidade de inverter o rumo que o país tem trilhado? Luís Campos e e Cunha manifesta alguma esperança, ainda que a porta seja muito estreita.
Portugal ainda pode sair desta crise de endividamento, sem recorrer a auxílios internacionais humilhantes, como tem sido o caso dos gregos. Mas temos de fazer por isso: o controlo das contas públicas não aparece espontaneamente.
Ao mesmo tempo porém, o professor manifesta algum cepticismo, face ao voluntarismo rígido e dogmático do Primeiro-Ministro, que parece obcecado em ficar para a história como o «Grande Construtor».
O estado de negação em que tem vivido o Governo vai sair muito caro a cada um dos portugueses, com juros mais altos, menos crescimento e certamente mais desemprego.
Por isso, a nota final do artigo do antigo Ministro das Finanças parece bastante pessimista, a roçar o desespero, tanto intelectual, como político.
Quando o Titanic se afundou, por incúria e soberba do comandante, a orquestra continuou a tocar. Foi um gesto tão heróico quanto inútil e, por isso, ainda o recordamos. Desta vez, também a banda continua a tocar, enquanto o País se afunda, como se nada se passasse. Desta vez não é heróico, é ridículo e trágico.