quarta-feira, 12 de maio de 2010

A VISITA DO PAPA SOB O SIGNO DA ESPERANÇA

As autoridades eclesiásticas responsáveis pela organização da viagem apostólica e pastoral de Bento XVI ao nosso país, que ontem teve início, resolveram em boa hora enquadrar o evento num tríptico de valores, a exprimirem outros tantos objectivos que, por assim dizer, traduzem a essência da viagem do Santo Padre, que é também uma peregrinação. Esses valores são a esperança, a sabedoria e a missão. Vale a pena determo-nos um pouco sobre cada um destes pontos em cada um destes dias, que vão ser diferentes dos demais dias do nosso quotidiano.

Nos tempos conturbados em que vivemos, em que muitos se interrogam sobre o futuro, em que a estabilidade política, económica e social das sociedades não parece garantida, em que as dúvidas se acumulam sobre a nossa identidade como cidadãos europeus, em que o rolo compressor da cultura secularizante e utilitarista dominante parece imparável, é natural que muitos se questionem sobre o que podem esperar no futuro, enquanto outros se rendem à ideia de que não vale a pena ter esperança. Só pode ter esperança quem tem a perspectiva de vislumbrar um rumo e e este rumo só é perceptível para quem sair fora do estreito caminho de uma visão em circuito fechado, apenas à volta do homem. Tem que se ir mais além, para algo que nos transcenda.

Nos seus escritos, quer como Cardeal Ratzinger, quer como Papa, é notória a insistência de Bento XVI na ideia de esperança. Essa esperança é necessária, antes de mais, no âmbito da própria Igreja, também ela abalada por problemas sérios e dificuldades imprevistas, seja no debate teológico e pastoral, seja na crise de vocações, seja no elevado nível de abandono da prática religiosa por parte dos cristãos, seja, mais recentemente, pelos dolorosos episódios das revelações de pedofilia praticada por membros do clero em diversos países.

Mas a esperança não é menos necessária no plano da sociedade e do mundo globalizado em que vivemos, face à ocorrência de tantos conflitos, militares, políticos, económicos, sociais e familiares, perante a persistência de níveis elevados de pobreza e subdesenvolvimento em tantas partes do mundo, diante de sinais de perda ou degradação de valores fundamentais como o respeito pela vida, as exigências de justiça social e a necessidade de melhor repartição de recursos entre os homens.

A esperança baseia-se, antes de mais, na capacidade de os homens superarem a sua tendência natural para o egoísmo, para se fecharem em si próprios, de modo a serem mais verdadeiros e solidários para com os outros. Mas a esperança não se consolidará sem a firme expectativa, melhor dizendo, sem a sólida certeza de que os homens podem mesmo contar com Deus. Deus está sempre presente (nós é que não reparamos), disponível para nos ajudar (nós é que não damos conta) e menos silencioso do que pode parecer a quem, como muitos de nós, ande distraído.