No âmbito da recente visita de Bento XVI a Portugal, o Primeiro-Ministro José Sócrates assistiu à celebração eucarística presidida pelo Papa, que se realizou no Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia 11 de Maio. No dia seguinte, em 12 de Maio, como estava previsto no programa, foi recebido em audiência pelo Santo Padre na Nunciatura Apostólica. Em ambos os casos, ao ser interpelado pelos jornalistas no final, quer da cerimónia litúrgica, quer do encontra diplomático, José Sócrates, ao falar de Bento XVI, referiu-se várias vezes a «Sua Eminência», querendo naturalmente aludir a «Sua Santidade». Ou seja, o Primeiro-Ministro despromoveu publicamente o Papa.O acontecimento passou quase despercebido ou, pelo menos, foi claramente secundarizado, quer pelo ambiente muito especial que se viveu nesses dias, quer também por força de uma certa condescendência e indulgência de que a comunicação social abusa por vezes relativamente a certas personalidades, a quem tudo desculpa e tudo perdoa, talvez por excesso de respeito, que é uma característica da cultura nacional em relação ao poder. No entanto, não parece razoável esquecer ou minimizar o acontecimento, mesmo que se pretenda considerá-lo um simples detalhe, porque os pormenores são importantes na política.
Antes de mais, parece difícil conside
rar ter-se tratado de um simples lapso, uma vez que ocorreu pelos menos três vezes sem que tenha havido qualquer rectificação ou tentativa de emenda. Também custa a crer que se tenha tratado de falta de informação ou mesmo de ignorância, uma vez que no caso estamos perante uma regra de tratamento protocolar e não de uma exigência de conhecimento religioso. Mesmo um não crente com responsabilidades políticas deve saber como se dirigir ou como se referir ao Papa. Ora, não é crível que um primeiro-ministro desconheça a esse ponto as exigências do relacionamento estabelecido pelo protocolo.
rar ter-se tratado de um simples lapso, uma vez que ocorreu pelos menos três vezes sem que tenha havido qualquer rectificação ou tentativa de emenda. Também custa a crer que se tenha tratado de falta de informação ou mesmo de ignorância, uma vez que no caso estamos perante uma regra de tratamento protocolar e não de uma exigência de conhecimento religioso. Mesmo um não crente com responsabilidades políticas deve saber como se dirigir ou como se referir ao Papa. Ora, não é crível que um primeiro-ministro desconheça a esse ponto as exigências do relacionamento estabelecido pelo protocolo.A explicação mais plausível para caracterizar o que se passou parece estar num aspecto da personalidade do Primeiro-Ministro, tal como tem vindo a ser evidenciada ao longo dos últimos anos. Esse aspecto traduz uma mistura de descontracção, desenrascanço e falta de rigor, ou seja, aquilo a que o nosso povo dá a saborosa designação de «meia bola e força». Todos os discursos que temos ouvido sobre os problemas de que o país padece enfermam do mesmo mal. É essa forma de comunicação «desembaraçada», «descomplexada» e trapalhona que tem permitido que se diga com toda a tranquilidade uma coisa num dia e o contrário poucos dias depois, isto é, aquilo que, também na típica linguagem popular, se chama «dar a volta por cima».