terça-feira, 18 de maio de 2010

DEPOIS DA INDIGNAÇÃO VEM A REVOLTA

O país encontra-se em verdadeiro estado de emergência económica e financeira, donde resultará inevitavelmente uma situação de emergência social. O Plano de Estabilidade e Crescimento já tinha representado uma espécie de «murro nos queixos», que apenas nos tinha deixado um pouco atordoados. Porém, as novas, mais duras e vexatórias medidas, que foram impostas em Bruxelas no dia 10 de Maio passado, constituem uma verdadeira «marretada na cabeça», um confisco fiscal impiedoso, que de certo nos vai deixar muito combalidos. Alguns poderão mesmo perder os sentidos.

Vai haver um significativo aumento de impostos. Quem o diz é o mesmo Governo que sempre, até há bem pouco, jurava a pés juntos que não haveria qualquer agravamento da carga fiscal. É óbvio que os responsáveis políticos sabiam que estavam a mentir, a enganar, a iludir com um cenário de embuste e mistificação. O pior é que o aumento dos impostos implica o decréscimo do rendimento das famílias e das empresas, a inevitável diminuição do nível de vida, o acréscimo do desemprego e o alastramento da pobreza.

É tão inevitável quanto imperiosa a pergunta: de quem é a culpa? Aqui, uma vez mais, o Governo satisfaz-se com com outro jogo de enganos. Na sua versão melíflua, a culpa, evidentemente é dos outros: da crise financeira internacional que rebentou nos Estados Unidos no verão de 2008 e, mais recentemente, dos ataques especulativos dos mercados. É, como sabemos, a perigosa e destrutiva teoria do bode expiatório (ver aqui), que exclui à partida qualquer possibilidade de autocrítica: os responsáveis políticos são bons, esforçam-se por fazer uma boa governação, os inimigos externos é que, por malvadez, não deixam.

No entanto, as pessoas sensatas e objectivas, que não andam nas nuvens nem vivem num mundo virtual, ou seja, que têm os pés bem assentes na terra, sabem muito bem que o desastre em que o país está mergulhado é o resultado da difusão nos responsáveis de uma grave doença que tem envenenado a acção política e governativa, o despesismo compulsivo. É a despesa descontrolada, sem freio, sem medida, sem critério, sem cobertura financeira adequada, verdadeiramente embriagante, mesmo intoxicante, para os políticos e gestores, que originou o défice orçamental excessivo, a dívida pública desmesurada, a dívida privada de nível irracional e o défice externo incomportável, a que acresce a produtividade de valor tão baixo que é suicida.

Por isso, se com o PEC ainda poderíamos sentir, muito justamente, o direito à indignação, com o novo pacote de medidas imposto pelas instâncias internacionais (como aconteceu com a Grécia, de quem gostamos de nos distanciar, mas em vão) não parece possível, nem é conveniente para a nossa sanidade mental e emocional, deixar de proclamar a nossa profunda revolta: contra a mentira e contra a incompetência!