quarta-feira, 30 de junho de 2010

A DIFÍCIL RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO

É hoje consensual entre a generalidade dos economistas que a década que termina no final deste ano pode ser considerada objectivamente uma década em grande parte perdida, em termos de desenvolvimento económico do país e de aumento da qualidade de vida dos portugueses. Ou seja, em vez de nos termos desenvolvido de forma consistente, equilibrada e equitativa, regredimos em termos globais e aumentámos as desigualdade sociais entre os cidadãos. Assim, falando frontalmente, podemos dizer que dez anos preciosos da nossa existência colectiva foram, por assim dizer, deitados para o caixote do lixo da história.

No entanto, não obstante a veracidade a gravidade desta análise, o facto de ser tão repetida, o que a pode ter banalizado, bem como a circunstância de o Governo exibir, de modo tão sistemático, um optimismo completamente artificial, em que alguns (os que têm horror às notícias negativas) ainda acreditam, fazem correr o risco de aquele diagnóstico parecer trivial, de perder força e significado, de tal modo que a generalidade das pessoas não terá ainda compreendido bem a terrível situação que lhe está subjacente: colectivamente estamos menos produtivos, menos competitivos e mais pobres.

Por outro lado, as respostas que se procuram para ultrapassar a crise situam-se, em geral, apenas no domínio das estruturas: é preciso mudar as políticas, é indispensável que o poder político actue de modo diferente. Tudo isto é necessário, sem dúvida, mas de forma alguma suficiente. De facto, raramente se considera o povo português, na globalidade dos seus 10,5 milhões de residentes, como actor essencial para a mudança. Não há o hábito de perguntar: que podem os portugueses concretamente fazer, para além do uso periódico da arma eleitoral para mudar de modelo de governação?

Tal como é essencial mudar as políticas, substituir os programas e adoptar outras medidas ou seja, alterar a atitude do poder político, também é indispensável modificar ou transformar a atitude dos portugueses: perante o trabalho, que é um factor de produção; face à economia, onde se gera a riqueza do país; perante a actividade financeira, onde se produz a poupança que agora tanta falta faz.

Mesmo que não se vá longe com as tão faladas e difíceis reformas estruturais, já seria um grande passo em frente conseguir melhorar o modo como os cidadãos actuam no quotidiano. Se o aumento da produtividade é condição «sine qua non» para a dinamização da economia e o aumento do bem-estar, tal objectivo só pode ser alcançado se cada cidadão se consciencializar de que deve melhorar um pouco, em cada dia, o seu contributo, em tudo o que faz, para o desenvolvimento colectivo.

No entanto, não ouvimos os políticos nem os responsáveis governamentais fazerem este apelo, pois estão em geral, viciados na velha e gasta receita política, de matriz paternalista, intervencionista e centralista, de que «cumpre ao Estado fazer». A realidade dos nossos problemas e a profundidade da crise mostram que não é assim. Há vida, muita vida, para além do Estado.