quarta-feira, 2 de junho de 2010

ISRAEL JÁ SE ESQUECEU DO EXODUS 1947?

Há certamente muitas formas de apreciar criticamente o insólito e desproporcionado ataque que as poderosas forças armadas israelitas realizaram contra uma indefesa flotilha de seis barcos civis, alguns vindos da Turquia, que pretendiam descarregar ajuda humanitária em Gaza. Há igualmente muitas maneiras de ponderar porque motivos os israelitas não utilizaram outros meios, igualmente eficazes, mas menos danosos, para impedirem o desembarque, sem necessidade de uso da força, que provocou numerosas vítimas, consequência inevitável de um assalto directo aos navios, como o que foi efectuado. Os soldados israelitas não podiam estar à espera de ser recebidos com palmas e grinaldas de flores.

Há de igual modo muitas formas de discutir a legitimidade ou, pelo menos, a razoabilidade ou a simples sensatez do persistente bloqueio militar de Israel à Faixa de Gaza, que condena colectivamente, de forma indiscriminada, um milhão e meio de palestinianos, sejam ou não simpatizantes do Hamas, à penúria e ao subdesenvolvimento.

No entanto, a melhor forma de evidenciar em que medida Israel tem estado há anos a cometer sucessivos erros políticos nas suas relações com os palestinianos, ao negar-lhes ou, pelo menos, ao não afirmar de modo inequívoco, o seu direito à autodeterminação, ao manter extensos territórios palestinianos sob ocupação militar, que dura há décadas, e ao negar aos seus habitantes o direito à livre circulação de pessoas e bens, é visitar a história. Não há dúvida de que a história é mestra da vida.

A história mostra que os judeus já estiveram em situação semelhante àquela em que se encontram os palestinianos, quando lutavam com energia e determinação pela criação de um Estado judaico, sujeitos às contradições políticas da Grã-Bretanha e às restrições arbitrárias impostas pela ocupação militar britânica na Palestina, entre 1919 e 1948. A história evidencia a saga verdadeiramente notável, mesmo heróica, do povo judeu, quando o movimento sionista pôs em marcha a imigração para a sua pátria ancestral, sobretudo a partir do começo do século XX. Neste particular, a história chama a atenção para a duplicidade, o cinismo, a falta de b0m senso e e a violência legal e física que as autoridades britânicas impuseram. A história lembra ainda os dolorosos acontecimentos decorrentes da prática de actos de terrorismo, alguns bastante mortíferos, por grupos radicais judeus.

Nos tempos que correm, os papéis da história inverteram-se: os palestinianos são os judeus de então e as autoridades israelitas são os britânicos dessa época. E bem se pode dizer que os israelitas aprenderam bem, mesmo na perfeição, com os britânicos, pois os métodos de actuação política e militar parecem decalcados a papel químico e baseiam-se igualmente naquilo que há de mais contraproducente no ser humano: a força e a violência em lugar do diálogo e da negociação.

É aqui que a história nos transporta para 1947, quando um barco norte-americano foi comprado a favor de um grupo político-militar judeu, que promovia por todos os meios, mesmo os clandestinos, a imigração para a Palestina, para contornar as duras e severas restrições impostas pela Grã-Bretanha. Foi esse barco, renomeado para o efeito Exodus 1947, que tentou transportar 4 515 refugiados judeus, muitos deles sobreviventes dos campos de concentração nazis. O brutal assalto ao navio, realizado pela marinha de guerra britânica em plenas águas internacionais, provocou três mortos e várias dezenas de feridos.

O que se seguiu foi vergonhoso e indigno, mas real. No meio de um coro de protestos e de críticas ao governo britânico, em que não faltaram, muito justamente, acusações de desumanidade, o barco foi trazido para Haifa, na Palestina e os passageiros, depois de transportados para Chipre e de terem sido sujeitos a várias peripécias, com deterioração das suas condições de vida, acabaram por ser internados em campos na zona britânica de ocupação da Alemanha, voltando assim, numa manifestação de cruel ironia da história, à sua antiga condição de prisioneiros, embora com outros carcereiros.