Aind
a não se desvaneceram os ecos nem se esfumaram os lampejos do aceso e vivo debate desencadeado pelo facto o Presidente da República não ter usado o veto político na promulgação da lei da Assembleia da República que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pode achar-se estranho que tais efeitos ainda se façam sentir, mas é um facto que ainda se mantêm, embora porventura agora mais em surdina, tal a força do azedume e da acrimónia que dominaram alguns sectores católicos, que se mostram amargamente decepcionados e zangados com a actuação de Cavaco Silva.
a não se desvaneceram os ecos nem se esfumaram os lampejos do aceso e vivo debate desencadeado pelo facto o Presidente da República não ter usado o veto político na promulgação da lei da Assembleia da República que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pode achar-se estranho que tais efeitos ainda se façam sentir, mas é um facto que ainda se mantêm, embora porventura agora mais em surdina, tal a força do azedume e da acrimónia que dominaram alguns sectores católicos, que se mostram amargamente decepcionados e zangados com a actuação de Cavaco Silva.Por isso mesmo, não considero exagerado voltar ao assunto, tanto mais que houve, da parte de determinados críticos, um salto qualitativo nas manifestações de desapontamento e nas atitudes de agastamento, na medida em que Cavaco Silva chegou a ser considerado por alguns como um «católico envergonhado», por aplicação extensiva, certamente exagerada e indevida, logo injusta, do apelo aos cristãos portugueses feito pelo Papa Bento XVI, quando da sua visita a Portugal em Maio último, e que encontrou eco em palavras recentes do Cardeal Patriarca de Lisboa, a que a comunicação social deu bastante relevo.
Para esses sectores católicos extremados Cavaco Silva teria cometido um pecado que não pode ter perdão, que não merece misericórdia, nem compaixão, que não pode implicar sequer um esforço sério de compreensão dos motivos, que podemos presumir sinceros, ponderados pelo Presidente, pelos apelos que fez à sua própria consciência, tanto pessoal, como política, que ninguém pode sem mais questionar. Daí a «sentença» que foi de imediato proferida: o Presidente não merece continuar no cargo, não é digno de ser reeleito. Daí a lógica do frenesi, que tem entretido a comunicação social, da necessidade de se perfilar um candidato alternativo, que possa representar dignamente, como disse um dos críticos, o «povo católico», que foi assim ofendido.
Parece difícil não ver nestas atitudes de forte condenação ética e religiosa a presença de pesadas sombras de um passado longínquo, que vem dos primórdios do cristianismo, mas que radica numa atitude cultural e religiosa que se tem manifestado muitas vezes ao longo dos tempos. É uma cultura que se baseia em ideias de um rigor extremo, de exigência implacável, de recusa de perdão, de condenação sem apelo nem agravo. É uma cultura que floresceu a partir do século IV, quando a seita donatista irrompeu com força no Norte de África, que era na altura uma região onde o cristianismo era vivido com particular intensidade, mesmo com dramatismo.
Donato, que provavelmente morreu em 355, foi bispo da Numídia e de Cartago. Tudo começou com a última grande perseguição à Igreja, em 303-305, no tempo do imperador Diocleciano. A violência, por vezes muito dura, dessa perseguição, fez com que muitos (leigos, sacerdotes e até bispos) tivessem cedido às exigências brutais das autoridades e tenham, de uma maneira ou de outra, traído os seus compromissos de cristãos e a sua fé.
Perante a alegada gravidade dos pecados c
ometidos pelos «traditores», Donato e outros, contra a maioria da Igreja, que condenou o movimento no concílio de Arles, em 314, sustentavam que a Igreja não podia perdoar tais faltas, nem, assim, readmitir os que tinham fraquejado durante a grande perseguição. Deste modo, as ordenações de padres e de bispos considerados «traditores», bem como os sacramentos por eles ministrados, não podiam ser válidos. Com o tempo, o donatismo, como movimento organizado, desvaneceu-se, a partir do século VII, mas os valores que enquadram a sua base psicológica, cultural e religiosa mantiveram-se, sob as mais variadas formas, e reaparecem de vez em quando.
ometidos pelos «traditores», Donato e outros, contra a maioria da Igreja, que condenou o movimento no concílio de Arles, em 314, sustentavam que a Igreja não podia perdoar tais faltas, nem, assim, readmitir os que tinham fraquejado durante a grande perseguição. Deste modo, as ordenações de padres e de bispos considerados «traditores», bem como os sacramentos por eles ministrados, não podiam ser válidos. Com o tempo, o donatismo, como movimento organizado, desvaneceu-se, a partir do século VII, mas os valores que enquadram a sua base psicológica, cultural e religiosa mantiveram-se, sob as mais variadas formas, e reaparecem de vez em quando.