segunda-feira, 21 de junho de 2010

MANIPULAÇÕES INFORMATIVAS E INGENUIDADES POLÍTICAS

Como se viu antes, a «crise política» artificial que, estranhamente, também começou e se projectou na esfera religiosa, desencadeada pelas reacções de alguns sectores católicos ao facto de o Presidente da República não ter vetado a lei, aprovada no Parlamento, que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tem tido grande repercussão na imprensa, que parece desproporcionada relativamente à importância do caso em si e ao seu significado. Ora, a experiência empírica ensina-nos que a desproporção na informação, ou seja, o excesso na transmissão dos dados, traz consigo, de modo inevitável, a manipulação na comunicação, isto é, a distorção na transmissão dos mesmos dados.

Um dia destes o Diário de Notícias dava conta, em grandes parangonas, de um documento anónimo, posto a circular nalgumas paróquias, onde não apenas se criticava muito fortemente o Presidente da República, apresentado de certo modo como exemplo acabado de «católico envergonhado», mas se sugeriam algumas acções concretas, que poderiam inclusivamente apelar ao tratamento do tema em homilias dominicais. Por outro lado, o referido jornal não só associava habilmente as acusações daquele panfleto às recentes declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa proferidas aos microfones da Rádio Renascença, mas também sugeria no título da primeira página, de forma capciosa, nem mais nem menos, que o documento distribuído poderia exprimir a posição da Igreja.

Os promotores deste tipo de notícias não se detiveram e, entusiasmados com o efeito conseguido, produziram mais títulos jornalísticos com grande carga mediática. Basta ver alguns exemplos do rol de proclamações dadas à estampa no dia 17 deste mês. O que à partida há de desconcertante e perturbador nestes episódios são as consequências da eventual justeza do conhecido princípio de que «em política, o que parece é».

Assim, pudemos ler no Público: Cem mulheres católicas do Movimento Mulheres Século XXI apelam à candidatura de Bagão Félix. Dizem que estão desiludidas com Cavaco Silva e defendem uma candidadtura que represente «o povo católico e os valores da família». Por seu turno, o diário i é mais abrangente nos seus títulos e subtítulos noticiosos, ao afirmar com ênfase: Cardeal Patriarca critica «católicos envergonhados»; católicos querem mesmo Bagão na corrida a Belém; D. José Policarpo criticou ontem a falta de ética nas escolhas políticas e apelou a que mais leigos assumam publicamente os valores católicos; Bagão Félix está a ser pressionadíssimo para entrar na corrida presidencial.

Felizmente, uma lufada de ar fresco, impregnada de equilíbrio e de bom senso, pode ter começado a desanuviar os ares, que ameaçavam ficar cinzentos, carregados e sufocantes. Segundo o Expresso do dia 19 de Junho, o Bispo do Porto D. Manuel Clemente, em declarações prestadas ao semanário, fala de «reacção excessiva» e avisa que as movimentações em causa «não correspondem a nada de estrutural no mundo católico português». «O Cardeal Patriarca disse o que disse, o Presidente da República fez a sua comunicação e ponto final. Acho que se está a fazer um castelo no ar», acrescenta D. Manuel Clemente, que diz não se rever em nada do que possa estar a passar-se com vista a encontrar um segundo candidato presidencial à direita.