Pode
r-se-á com razão perguntar o que porventura liga o comboio de alta velocidade, cujo projecto tem levantado tanta polémica e cuja construção, segundo parece, vai mesmo ter início, e a obscura estação ferroviária da freguesia de Riachos, que pertence ao concelho de Torres Novas, no distrito de Santarém, por onde passa a linha do Norte, que liga o Porto a Lisboa. A resposta, aparentemente paradoxal e contraditória, mas, como se verá, verdadeira, é que, ao mesmo tempo, tudo liga e nada liga uma coisa à outra. E mais do que isso, ambas as coisas reflectem o mesmo padrão cultural e a mesma atitude que dominam o modo de fazer política em Portugal.
r-se-á com razão perguntar o que porventura liga o comboio de alta velocidade, cujo projecto tem levantado tanta polémica e cuja construção, segundo parece, vai mesmo ter início, e a obscura estação ferroviária da freguesia de Riachos, que pertence ao concelho de Torres Novas, no distrito de Santarém, por onde passa a linha do Norte, que liga o Porto a Lisboa. A resposta, aparentemente paradoxal e contraditória, mas, como se verá, verdadeira, é que, ao mesmo tempo, tudo liga e nada liga uma coisa à outra. E mais do que isso, ambas as coisas reflectem o mesmo padrão cultural e a mesma atitude que dominam o modo de fazer política em Portugal.De facto, aparentemente o TGV não tem nada a ver com Riachos e a sua modesta estação ferroviária. O comboio de alta velocidade representa a última tecnologia em ligações ferroviárias, que garante alta qualidade e níveis superiores de velocidade, segurança e conforto. Além disso, o TGV coloca Portugal no quadro da rede europeia de alta velocidade, o que permite diminuir os ónus da periferia e do isolamento para que a situação geográfica do país e as deficientes infra-estruturas ferroviárias têm contribuído. O TGV é uma afirmação de modernidade e de progresso, é um projecto de vanguarda digno do século XXI, que nos coloca ao nível dos países europeus mais desenvolvidos. O TGV é tudo isso, mas há um reverso da medalha vexatoriamente negativo.
Com efeito, Riachos é, pelo contrário, uma das muitas manifestações de atraso e subdesenvolvimento, que não podem ser consideradas consequência da falta de recursos financeiros, mas da sua má gestão, e, bem assim, fruto do desleixo, da indiferença e da incompetência. Por isso, tem uma estação ferroviária em grande parte
com uma estrutura própria do século XIX, em que para se passar de um cais para o outro é forçoso atravessar a dupla linha existente, onde passam bastantes comboios. Para o efeito, lá estão as grossas travessas de madeira colocadas entre os carris, como se fazia antigamente, que os passageiros são obrigados a percorrer de um modo que é ao mesmo tempo incómodo e perigoso. Não admira, assim, que recentemente lá tenha ocorrido um grave acidente, que tirou a vida a dois utentes e a um funcionário da estação, que tentou socorrê-los quando se apercebeu da rápida aproximação do comboio, que a todos vitimou.
com uma estrutura própria do século XIX, em que para se passar de um cais para o outro é forçoso atravessar a dupla linha existente, onde passam bastantes comboios. Para o efeito, lá estão as grossas travessas de madeira colocadas entre os carris, como se fazia antigamente, que os passageiros são obrigados a percorrer de um modo que é ao mesmo tempo incómodo e perigoso. Não admira, assim, que recentemente lá tenha ocorrido um grave acidente, que tirou a vida a dois utentes e a um funcionário da estação, que tentou socorrê-los quando se apercebeu da rápida aproximação do comboio, que a todos vitimou.No meio de tanto desperdício de recursos a que assistimos na forma voluntarista e irrealista como muitas vezes se governa, parece que nunca houve oportunidade para os responsáveis, pensando seriamente na segurança das pessoas, mandarem construir na estação uma passagem, subterrânea ou aérea, que separasse as vias de passagem das poderosas composições ferroviárias e dos frágeis utilizadores que precisam de se deslocar de um lado para o outro da estação. De facto, a regra deve ser: pessoas para um lado, comboios para outro. É uma questão de bom senso.
É aqui que o TGV tem a ver com a discreta estação de Riachos, pois em ambos os casos é a mesma a cultura política que está em causa. É uma cultura que produz o excesso de deslumbramento fácil perante o fenómeno da alta velocidade e a irrestível e desmedida atracção das novas tecnologias, que origina a vaidade de estar a todo o custo «no pelotão da frente», de seguir a moda das grandes realizações e que, por isso, faz imprudentemente afectação de recursos finaneiros que podem fazer falta noutras áreas em que, como no caso das passagens de nível, há evidentes necessidades colectivas não satisfeitas há muito tempo. É essa mesma cultura que olha com desdém para o atraso inaceitável de uma estação ferroviária em que facilmente podem morrer pessoas atropeladas por comboios, à boa maneira do século XIX. Porém, para os vistosos tecnocratas obcecados com o «progresso da modernidade», que importância tem a morte de três pessoas, de três insignificantes cidadãos?