segunda-feira, 7 de junho de 2010

OS PORTUGUESES SÃO CADA VEZ MENOS EMPREENDEDORES?

É possível, se não mesmo certo, que uma das razões para a crise global, tanto económica, como financeira, em que o país está mergulhado, se encontre na resposta a esta pergunta crucial. Na verdade, o espírito de empreendimento é fundamental para o aumento da produtividade e a dinamização da actividade empresarial, que estão na base de qualquer desenvolvimento económico sustentável. Ora, de acordo com um relatório do Eurobarómetro, que acaba de ser apresentado em Bruxelas, os portugueses revelam cada vez menos vontade de serem os seus próprios patrões e são dos europeus menos propensos a iniciar uma actividade económica sob a sua responsabilidade.

Aliás, segundo o mesmo estudo, a percentagem de portugueses que se consideram disponíveis para iniciar uma actividade por conta própria tem declinado sensivelmente nos últimos anos, pois passou de 71% em 2002, para 62% em 2004 e apenas 51% em 2009. Aparentemente tudo se passa como se o sentido de iniciativa individual tivesse entrado em colapso face às dificuldades que, de modo crescente, ano após ano, têm vindo a travar o desenvolvimento da nossa economia.

Há certamente muitas explicações para este fenómeno, mas não ficaríamos surpreendidos se uma das principais causas para esta situação se encontrasse no modo como o poder político encara as funções do Estado e o seu relacionamento com a sociedade (cidadãos, famílias, grupos sociais e empresas). Se é verdade que o Governo tem procurado tomar algumas medidas (financeiras, legislativas e administrativas) tendentes a facilitar o empreendedorismo e a criação de empresas, tais medidas têm sido muitas vezes enfraquecidas e mesmo anuladas pelo clima geral de excesso de intervenção do Estado, que se manifesta em todos os sectores da economia.

Este clima sufocante e deletério, que, num ambiente político muito partidarizado, tem vicejado à sombra da omnipresença do Estado, tem contribuído para gerar receios, aumentar a desconfiança e agravar a descrença dos potenciais empreendedores. Por outro lado, essa presença excessiva e paternalista do Estado, que quer estar em todo o lado, mexer em tudo e participar em tudo, que não resiste à tentação de querer tirar louros políticos das iniciativas privadas, como se tem visto, tem ajudado a criar condições objectivamente favoráveis ao alastramento de um clima de suspeição, compadrio, favoritismo e mesmo corrupção.

Esta mistura explosiva de factores negativos constitui um autêntico travão ao desenvolvimento de iniciativas genuinamente empresariais, que se querem libertas da tutela e da opressiva «presença protectora» do Estado, sobretudo quando o poder político é muito marcado, como acontece entre nós, em termos ideológicos e partidários.