As eleições legislativas realizadas na Bélgica no dia 13 de Junho, que não constituíram propriamente uma surpresa, a não ser para os que andam distraídos sobre a evolução dos povos, caracterizaram-se por uma forte progressão, na região da Flandres, dos partidos favoráveis ao reforço da autonomia, tendo em vista a transformação da actual federação de três regiões (Valónia, Bruxelas e Flandres) numa confederação, que não afaste, a prazo, a hipótese da independência. A grande novidade foi constituída pelo facto de pela primeira vez um partido independentista flamengo, que beneficiou de uma rápida expansão eleitoral nos últimos dez anos, ter sido o mais votado na respectiva região.De um modo geral, este acontecimento político foi analisado dentro dos parâmetros do que se considera politicamente correcto, ou seja, do que que é conveniente para a manutenção do «status quo», o que significa que aspectos importantes da questão foram, em regra, subestimados ou esquecidos.
Ora, as pessoas mudam, as sociedades mudam igualmente, pelo que os povos também podem sofrer transformações. Porém, se as estruturas políticas não mudarem em conformidade, se permanecerem estratificadas e rígidas, o que as torna inadequadas, é inevitável o aparecimento de tensões e conflitos, de início de cariz cultural, mas que podem facilmente degenerar em querelas políticas com maior ou menor amplitude. É o que se tem verificado, lentamente e de forma pacífica e democrática, na Bélgica. Foi igualmente o que aconteceu, embora de modo violento e acelerado, na Sérvia e na antiga Jugoslávia, relativamente ao Kosovo.
Em 1830 a Bélgica surgiu como país independente, reunindo dois povos distintos, os valões, de expressão francesa
, e os flamengos, de expressão neerlandesa, porque ambos estavam na altura unidos pela religião católica, em oposição ao protestantismo dominante nos Países Baixos (actual Holanda), ligados entre si pelo predomínio da língua e da cultura francesas, mesmo entre as elites flamengas, e entrosados pela pujança industrial da Valónia. Por isso, a própria língua neerlandesa só foi reconhecida como língua oficial do reino quase setenta anos mais tarde, o que, como bem se compreende, gerou ressentimentos, que se agravaram com o tempo. Isto quer dizer que a unidade belga foi conseguida com a supremacia e o domínio de uma parte do país sobre a outra. Hoje assiste-se, de certo modo, ao reverso da medalha, embora com outros contornos.
, e os flamengos, de expressão neerlandesa, porque ambos estavam na altura unidos pela religião católica, em oposição ao protestantismo dominante nos Países Baixos (actual Holanda), ligados entre si pelo predomínio da língua e da cultura francesas, mesmo entre as elites flamengas, e entrosados pela pujança industrial da Valónia. Por isso, a própria língua neerlandesa só foi reconhecida como língua oficial do reino quase setenta anos mais tarde, o que, como bem se compreende, gerou ressentimentos, que se agravaram com o tempo. Isto quer dizer que a unidade belga foi conseguida com a supremacia e o domínio de uma parte do país sobre a outra. Hoje assiste-se, de certo modo, ao reverso da medalha, embora com outros contornos. De facto, muitas coisas mudaram de forma significativa desde então. A Valónia entrou lenta e irreversivelmente em declínio, tanto económico, como populacional e cultural. A Flandres, pelo contrário, teve uma demografia mais dinâmica (os flamengos represen
tam hoje 60% da população belga), desenvolveu uma economia mais forte e expansiva e adquiriu a consciência, cultural e política, de que possui uma identidade própria. Esta evolução do país e dos dois povos que o constituem desembocou nas reformas constitucionais que há algumas décadas levaram à criação de uma estrutura federal com a criação de três regiões autónomas, com um sistema de autogoverno em determinadas matérias.
tam hoje 60% da população belga), desenvolveu uma economia mais forte e expansiva e adquiriu a consciência, cultural e política, de que possui uma identidade própria. Esta evolução do país e dos dois povos que o constituem desembocou nas reformas constitucionais que há algumas décadas levaram à criação de uma estrutura federal com a criação de três regiões autónomas, com um sistema de autogoverno em determinadas matérias.A crise que actualmente domina a Bélgica e paralisa as suas instituições políticas radica, no fundo, no facto de os valões, que perderam a liderança económica e política de que desfrutaram historicamente (data de há mais de trinta anos a nomeação do último primeiro-ministro valão) considerarem que a autonomia concedida às regiões atingiu o seu patamar máximo, ao passo que os flamengos entendem que tal reforma constitucional foi apenas um ponto de partida para o gradual aumento dessa autonomia, tendo como objectivo, para já, a criação de uma estrutura confederal. No fundo, subjacente a esta evolução, permanece a ideia em que radica o princípio do direito dos povos à autodeterminação, que a comunidade internacional aceitou, de forma tão generosa, em relação à antiga Jugoslávia.