domingo, 6 de junho de 2010

A VIDA É SEMPRE UM DOM PRECIOSO

A celebração litúrgica deste domingo é dominada por dois relatos bíblicos, um do Antigo e outro do Novo Testamento, que apresentam conteúdos muito semelhantes e exprimem idênticos significados. Em ambos os casos, o primeiro passado com o profeta Elias e o filho da viúva de Serapta e o segundo ocorrido com Jesus Cristo e o filho da viúva de Naim, os dois jovens, entretanto falecidos, foram, por assim dizer «in extremis», miraculosamente salvos da morte e restituídos à vida.

A mensagem dos textos sagrados parece evidente: através dos dois actos extraordinários realizados, em si susceptíveis de assombrar o comum das pessoas, é proclamado de forma extremamente impressiva, mesmo dramática, que a vida é um bem único, inestimável e insubstituível, que porventura nem sempre apreciamos como deveríamos.

As coisas são assim, não apenas por aquilo que significa viver, fazer parte activa da criação, do universo, mas sobretudo porque cada um de nós, cada ser humano, é para todo o sempre uma entidade única, pessoalíssima e irrepetível, uma personalidade exclusiva. E o que é único tem por natureza um valor incalculável, quase poderíamos dizer absoluto, mesmo que seja ontologicamente limitado. É por isso que a todo o ser humano gerado deve ser permitido viver e a todo o ser humano vivente não deve ser permitido antecipar o termo do seu ciclo de vida.

Essa subsistência única do ser humano, a quem foi dada a vida, traduz-se num conjunto maravilhoso e deslumbrante de faculdades: a) a capacidade humana de pensar, querer e amar, bem como agir de forma livre e inteiramente pessoal; b) a capacidade de se integrar em grupos e em redes de relacionamento pessoal e social com os outros seres humanos; c) a capacidade de conhecer os espantosos mistérios do universo de que, afinal, faz parte; d) a capacidade de descobrir Deus de várias maneiras, quer pela consideração das «pegadas» que Ele deixou no universo criado, quer pela análise das «impressões digitais» de Deus que descobrimos no nosso interior anímico e no nosso pulsar existencial; e) a capacidade de entrevermos a continuidade e permanência do nosso eu para além da morte biológica, como impressivamente é referido na liturgia dos fiéis defuntos: com a morte, «vita mutatur non tollitur», isto é, a vida não acaba, apenas se transforma.