Tal como acontece em muitos aspectos do nosso quotidiano, nem sempre é fácil passar da teoria à prática, conformar os actos com as ideias, harmonizar o pensamento e a acção. Por vezes, como que se estabelece uma barreira, um fosso, que impede que a formulação mental, a adesão cultural e ideológica, a «base de dados registada na nossa mente sejam plasmadas de forma efectiva e coerente nas palavras, nas atitudes e no relacionamento com os outros. Na acção política é muito frequente manifestar-se um tal desajustamento, que transmite a imagem negativa de falta de credibilidade ou mesmo de hipocrisia e cinismo, além, naturalmente, de provocar conflitos políticos desnecessários e prejudicar a eficácia da governação.Vem isto a propósito da notícia, inserida no último número do semanário Sol, que relata o péssimo desempenho do Governo, em geral, e de alguns ministérios em particular, no seu dever de dar resposta às interpelações escritas feitas, sobre as mais variadas questões, pelos partidos com assento no Parlamento, em que solicitam informações e esclarecimentos.
«De um total de 3780 questões que saíram da Assembleia da República para os ministérios, na sessão legislativa que agora terminou, 1750 já passaram o prazo legal (30 dias), perante o silêncio dos membros do Executivo. Em termos absolutos, o Ministério das Finanças é o campeão da ausência de respostas: 631 pedidos de esclarecimento ficaram na gaveta de Teixeira dos Santos. Seguem-se a Ministra da Saúde, Ana Jorge, e a Ministra do Trabalho, Helena André. Nem os deputados socialistas escaparam à ausência de explicações do Governo». Esta deplorável prática governamental, que resulta certamente de uma mistura de desleixo e de arrogância, revela dois sintomas graves de mau funcionamento da democracia em Portugal.
Antes de mais, está em causa o facto em si mesmo da omissão da informação, cuja gravidade é evidente. Quando não há informação, surge facilmente a suspeição e o boato, que podem envenenar as relações institucionais dos órgãos de soberania. O Governo, cujos gabinetes ministeriais estão povoados de adjuntos e de assessores, de peritos e consultores, parece não considerar prioritário um aspecto fundamental do seu relacionamento com o Parlamento (prestar informações) e do cumprimento das suas obrigações constitucionais (responder atempadamente às interpelações parlamentares).
Por outro lado, um tão elevado número de pedidos de esclarecimento apresentados pelos grupos parlamentares só pode significar que o Governo actua às escondidas, que, quando toma medidas de política, não fornece as informações necessárias para a cabal e correcta compreensão do seu conteúdo e alcance, dos seus objectivos, bem como das razões justificativas das decisões tomadas. De resto, como os responsáveis governamentais têm a tendência para confundir informação com propaganda, muitas das acções ditas de divulgação não são muitas vezes mas do que auto-elogios e referências propagandísticas, à revelia do esclarecimento objectivo e sincero dos factos e dos motivos.
Por isso, a acção política em Portugal anda envolta num nevoeiro difuso e perturbador, mesmo malsão, que não facilita o discernimento das políticas, não ajuda à compreensão dos problemas, nem contribui para o reforço da confiança.