quarta-feira, 7 de julho de 2010

A CRISE, AS POLÍTICAS EUROPEIAS E OS CATAVENTOS

Algo de estranho, porventura mesmo de incompreensível, se tem passado na União Europeia nos últimos dois anos, pelo facto de se terem verificado mudanças significativas, por vezes contrastantes, no meio de muitos ziguezagues, de várias indecisões, bem como de avanços e recuos, nas políticas adoptadas para fazer face à crise internacional desencadeada em 2008 pelo rebentamento da chamada bolha imobiliária dos Estados Unidos, a que se seguiu a fractura ou a fragilização de importantes áreas do sector financeiro e, por arrastamento inevitável, a degradação das economias da generalidade dos países.

Todos nos lembramos da enorme surpresa que provocou o rebentamento da crise, bem como da perturbação e da desorientação dos governos face à sua dimensão e efeitos, em busca de uma linha política que parecesse adequada e eficaz. Nesse contexto, prevaleceu a «receita» propugnada pelo Presidente Obama, compreensivelmente o primeiro a reagir, dado que o «vulcão financeiro» rebentou afinal nos Estados Unidos. Os responsáveis europeus ficaram de início perplexos, discutiram uns com os outros algo precipitadamente, entre a energia intervencionista do britânico Gordon Brown, bem secundado pelo português José Sócrates, e as reservas e hesitações da alemã Ângela Merkel, mas rapidamente alinharam, no essencial, com as políticas estado-unidenses.

Aquela «receita» traduziu-se num enorme reforço do intervencionismo do Estado, através da injecção de capitais nas instituições financeiras e noutras empresas. Ocorreram nacionalizações, directas ou indirectas, de algumas empresas. Os ideólogos socialistas rejubilaram, ao ponto de alguns terem afirmado, com incontida euforia, que «o socialismo estava de volta». O Estado, arvorado em grande salvador do sector financeiro e da economia, não olhava a meios nem a limites para atirar dinheiro para a economia, sem fazer grandes contas, nem controlar os inevitáveis desperdícios, decorrentes da pressa com que tudo foi feito, da incompetência, do oportunismo e da cupidez de muitos dos beneficiários de tanta generosidade pública.

Na altura, poucos fizeram perguntas elementares, como, por exemplo, aonde iam os governos buscar o dinheiro necessário, quais os efeitos práticos de tais injecções financeiras e quais as consequências de tanta «aplicação financeira» na própria estabilidade financeira do Estado. Foram tempos de acção pura, não de análise fria, de reflexão serena e de planeamento rigoroso. Hoje sabemos que muitas vezes foram também tempos de prodigalidade, de esbanjamento, de indisciplina financeira, ou seja, de dissipação de preciosos recursos financeiros que agora fazem tanta falta.

Como era inevitável, a factura que se apresentou é pesada e problemática: enormes défices orçamentais do Estado, gigantescas dívidas, tanto do sector público, como do sector privado, consideráveis défices externos. De repente, começou a não haver dinheiro, porque o descontrolo financeiro dos governos alarmou os mercados financeiros e o serviço da dívida começou a encontrar entraves e a ficar mais caro. O drama financeiro da Grécia, bem como, embora em menor escala, de outros países, entre os quais se encontra Portugal, deu o alerta geral e de novo assistimos à confusão, perplexidade e desorientação, agora em sentido inverso.

Assim, da prodigalidade irresponsável nos gastos públicos passou-se de súbito para uma espécie de estranha competição de duras medidas de austeridade, caracterizadas por uma avareza quase desumana e socialmente indigna, com os governos a perseguirem os cidadãos, sem dó nem piedade, através do agravamentos da carga fiscal e de cortes indiscriminados nos seus direitos sociais, em busca de mais dinheiro. É a política do catavento, em que as decisões governamentais decorrem, não da razão e da equidade, mas da força do vento das políticas conjunturais, baseadas na imprevidência, no atabalhoamento e na improvisação. Como sempre, os povos é que sofrem, pois são eles que pagam.