domingo, 4 de julho de 2010

A DIFÍCIL (OU IMPOSSÍVEL?) UNIDADE ECUMÉNICA

Diz-se por vezes que a desunião entre os cristãos, divididos em vários credos, é um escândalo face à vocação natural do cristianismo para a unidade, já que ele radica na profissão de fé num único Senhor e Salvador, Jesus Cristo. É aqui que está a pedra angular da unidade. É também aqui que surge a grande interrogação: esta unidade, que radica em Cristo, deve ter o significado de unicidade ou é compatível com um certo grau de pluralidade e diversidade, que é inerente à natureza humana? O principal e irredutível problema não estará precisamente numa certa confusão dos dois conceitos?

De qualquer modo, parece evidente que o escândalo maior será a persistência desta divisão ao longo dos séculos, na sequência das duas graves rupturas verificadas, primeiro no século XI, com as igrejas orientais, que a si mesmas se designam, sintomaticamente, como ortodoxas, até à grande, dolorosa e mesmo violenta fractura ocorrida no século XVI, em pleno ocidente cristão, quando os movimentos luterano e calvinista emergiram com força no âmbito da igreja latina, conhecida como católica.

Parece razoável pensar que a principal dificuldade, que tende a tornar-se numa efectiva impossibilidade, para a aproximação entre si dos vários ramos do cristianismo, estará no facto de que tal exercício deveria implicar que se começasse ao nível zero. Sem uma corajosa e incondicional autocrítica não parece possível avançar muito. Isto significa que, no caso da cisão entre católicos e protestantes, teríamos que recuar até ao começo do século XVI e proceder a uma aprofundada autocrítica. Que correu mal, de parte a parte, para que a ruptura se tivesse consumado e da forma como foi? Que deveria ter sido feito e não se fez e quais as causas dessas graves omissões? O mesmo tipo de interpelação teria que ser feito após se recuar até ao século XI, quando se deu a primeira grande ruptura, entre Roma e Constantinopla. Sem esta purificação da história a busca da unidade pode ser pouco mais do que uma ilusão.

Poder-se-á perguntar porque tem sido tão difícil, de tal modo que roça o impossível, a realização dessa auto-avaliação, essencial para a compreensão, que é a porta estreita que dá acesso à «unidade ecuménica». A resposta está à vista se considerarmos que a religião, que liga o homem a Deus, pode ter sido demasiado dominada, mesmo contaminada, por factores puramente humanos (um deles, o mais sensível, é o poder) contingentes, precários, subjectivos e desajustados, ainda que bem intencionados, que em camadas sucessivas se foram estratificando e consolidando ao longo dos séculos, transformando a simplicidade original do cristianismo numa realidade extremamente complexa. A complexidade gera facilmente o desacordo, que abre as portas à desunião e mesmo ao conflito.

Não foi por acaso que nas primeiras décadas de desenvolvimento do cristianismo, o próprio São Paulo foi forçado a entrar em debate crítico com São Pedro a propósito de um problema (relação entre as práticas genuinamente cristãs e as práticas judaicas) que hoje nos faz sorrir, mas que na altura constituía uma questão de vida ou de morte, pois tinha a ver com com o princípio fundamental da liberdade dos cristãos de origem pagã face ao ritualismo normativo e procedimental do judaísmo da época. Ao longo dos séculos, quantas vezes os conflitos não surgiram por se dar maior relevância à forma do que ao conteúdo, maior importância ao acessório do que ao essencial?