Prat
icamente só temos tido imagens positivas do Mundial de Futebol, actualmente a decorrer na África do Sul, com o significado especial de ser a primeira vez que o evento se desenrola no continente africano. A FIFA terá achado que era altura de os africanos mostrarem do que são capazes neste domínio. Assim, vemos com bonomia os magníficos estádios cheios de uma multidão exuberante e ruidosa, assistimos ao desfile, por vezes com enquadramentos carnavalescos, dos coloridos e nada silenciosos grupos de apoio das diversas selecções concorrentes, percebemos que em cada país o amor à pátria também se apoia no mediatismo dos acontecimentos desportivos.
icamente só temos tido imagens positivas do Mundial de Futebol, actualmente a decorrer na África do Sul, com o significado especial de ser a primeira vez que o evento se desenrola no continente africano. A FIFA terá achado que era altura de os africanos mostrarem do que são capazes neste domínio. Assim, vemos com bonomia os magníficos estádios cheios de uma multidão exuberante e ruidosa, assistimos ao desfile, por vezes com enquadramentos carnavalescos, dos coloridos e nada silenciosos grupos de apoio das diversas selecções concorrentes, percebemos que em cada país o amor à pátria também se apoia no mediatismo dos acontecimentos desportivos.As televisões estão no seu elemento preferido, ao transmitirem infindáveis reportagens, mesmo quando umas e outras se repetem, em que é dado facilmente relevo, não raro com manifesto exagero, a coisas objectivamente menores ou mesmo insignificantes. Os responsáveis sul-africanos exibem o sorriso de quem se considera orgulhoso de ter cumprido bem o seu dever, até porque na preparação do Mundial chegou a haver dúvidas sobre isso, e os poderosos dirigentes da FIFA, que dirigem um mundo que funciona à parte do mundo do nosso quotidiano, mostram a sua incontida satisfação.
Deste modo, tudo parece estar bem, tudo aparenta ser maravilhoso na grande e inebriante festa do futebol, tudo decorre sem problemas. Porém, no meio deste encantador turbilhão de acontecimentos, se pararmos um pouco para pensar com mais frieza e abrangência, se encararmos as coisas na perspectiva de um horizonte mais vasto, olhando para a realidade da sociedade sul-africana, dificilmente podemos fugir a uma inquietante interrogação: será mesmo assim?
Só agora alguma comunicação social começa, ainda timidamente, a desc
obrir o véu daquilo que certamente virá a ser objecto de controvérsia e porventura de acrimónia. Um dos títulos, porém, já diz muita coisa, certamente bastante preocupante, ao afirmar: «estádios sul-africanos sem futuro»; «a África do Sul ficará sem saber o que fazer dos estádios». Parece inevitável que o país, que tem tantas carências e se debate com tantos problemas na educação, no emprego, na economia, na saúde e na segurança, vai confrontar-se no futuro com um impressionante lote de «elefantes brancos», de monos gigantescos, cuja factura financeira poderá ser enorme.
obrir o véu daquilo que certamente virá a ser objecto de controvérsia e porventura de acrimónia. Um dos títulos, porém, já diz muita coisa, certamente bastante preocupante, ao afirmar: «estádios sul-africanos sem futuro»; «a África do Sul ficará sem saber o que fazer dos estádios». Parece inevitável que o país, que tem tantas carências e se debate com tantos problemas na educação, no emprego, na economia, na saúde e na segurança, vai confrontar-se no futuro com um impressionante lote de «elefantes brancos», de monos gigantescos, cuja factura financeira poderá ser enorme.De facto, foram preparados dez estádios distribuídos por nove cidades. Só quatro desses estádios resultaram da renovação e adaptação de recintos desportivos anteriormente existentes, pelo que os restantes seis foram expressamente construídos de raiz para o Mundial, tudo com o custo global de cerca de 3 mil milhões de euros. Trata-se de uma quantia enorme para qualquer país, sem dúvida enormíssima para a África do Sul. No entanto, mais do que o enorme peso financeiro deste investimento, avulta o facto de os analistas entenderem que apenas dois dos estádios podem garantir adequada rentabilidade financeira, mesmo assim com alguma dificuldade. Isto significa que os restantes oito estádios constituirão empreendimentos permanentemente deficitários, a exigirem custos de manutenção significativos, que farão sem dúvida falta em sectores essenciais da sociedade sul-africana.
Como sempre tem acontecido nestes eventos desportivos à escala mundial, os países organizadores ficam tão orgulhosos com o facto de o serem, que perdem a noção das proporções e o sentido da justiça e da equidade. Por seu turno, a FIFA, que funciona fechada sobre si própria, permanece completamente indiferente a tanto desperdício e a tanta injustiça dele emergente. A FIFA sabe que estes eventos são caríssimos, pelo que só muito poucos países em todo o mundo estão objectivamente em condições de os organizarem sem ferirem as exigências da justiça. A FIFA sabe realmente disso, mas permanece indiferente a essas «coisas menores», como a pobreza, a doença e o subdesenvolvimento. Nada disso é comparável a um bom torneio de futebol mundial. Ou seja, depois disto, depois desta festa, que importa que venha o dilúvio?