As pessoas sensatas e objectivas, que sabem que «por dentro das coisas é que as coisas são», que não têm ilusões quanto à profundidade da crise económica e financeira em que o país se encontra mergulhado, que, não sendo pessimistas, sabem reconhecer que a recuperação terá que ser estrutural, logo, lenta e prolongada, não reagem de forma ligeira, quase infantil, de certo modo irresponsável, perante as notícias que os institutos de estatística e de análise periodicamente transmitem. Como é evidente, tratando-se de observações de curtos períodos (meses ou trimestres), as modificações dos registos e dos cenários, para mais ou para menos, exprimem-se em míseras décimas, como acontece, por exemplo, quando se afirma que o desemprego desceu 0,1% ou que o consumo interno cresceu 0,1%.Nenhuma destas informações sectoriais e temporalmente limitadas é muito relevante e não merece, por isso, comentários especiais, nem para vituperar, nem para elogiar. Só as análises de médio prazo, com a inclusão de todos os indicadores e não apenas daqueles dois, que incidam, em termos prospectivos, sobre os próximos 5 a 10 anos, em conjugação com as análises relativas, em termos retrospectivos, aos últimos 5 a 10 anos, merecem verdadeira atenção, porque só elas fornecem diagnósticos sólidos e fiáveis da real situação e das tendências da economia e das finanças.
Por isso, causa estranheza e alguma perturbação ver a injustificada euforia e a despropositada retórica com que o Governo, como aconteceu nos últimos dias, reagiu a uma informação do Instituto Nacional de Estatística, que anunciou a melhoria, por escassas décimas, dos indicadores de desemprego e de consumo interno. Na ocasião, contrariando todas as exigências de prudência, os responsáveis governamentais ignoraram completamente a existência de circunstâncias conjunturais, porventura não repetíveis, que explicam os dados revelados, mas que podem não significar nada em termos globais e estruturais.
Assim, parece evidente que a descida da taxa de desemprego se deveu ao conhecido fenómeno do aumento da oferta de trabalho sazonal no período do verão. Por outro lado, não parece haver dúvidas de que o anormalíssimo aumento da compra de automóveis, que influenciou favoravelmente as taxas de consumo interno e de crescimento económico, esteve relacionado com o aumento da taxa do IVA a partir de 1 de Julho, . Por isso, não há nenhuma garantia de que esta progressão continue nos próximos meses, tanto mais que se prevê um agravamento da situação no próximo ano. Ou seja, as melhorias tão proclamadas podem ter um significado puramente conjuntural, sem efeitos na anemia estrutural da economia.
Esta atitude do Governo revela, no fundo, duas coisas. Por um lado, os responsáveis políticos não sabem bem como actuar para sair de uma crise desta natureza, que é profunda, pois se manifesta não há escassos dois anos, mas já há cerca de uma década. Por outro lado, faltando uma visão estratégica de médio prazo, a governação concretiza-se fundamentalmente em acções de curto prazo, segundo o método, por natureza inconsequente, da navegação à vista, própria de quem não sabe ou não pode aventurar-se no mar alto. Daí o entusiasmo, certamente ingénuo se não fosse outra coisa, por aquilo que poderíamos chamar a «festa das décimas».