domingo, 25 de julho de 2010

O DIFÍCIL SENTIMENTO DO PERDÃO

O ser humano é em si mesmo complexo e, por vezes, mostra até que ponto é contraditório, por força da sua riqueza interior, feita de ideias, sentimentos e emoções, bem como de decisões e acções, de recolhimento interior e de relações com os outros, tudo sujeito a cambiantes e a contrastes. É no âmbito desta complexidade sensorial e anímica que se manifesta um dos exercícios mais difíceis e, muitas vezes, penosos, aqui e além mesmo impossíveis de realizar: perdoar as ofensas dos outros.

O nosso comportamento natural é reactivo em relação a uma ofensa recebida, pois reclama uma resposta tendencialmente radical. Daí as conhecidas expressões: «nunca mais quero falar com ele»; «nunca mais lhe aperto a mão»; «nem sequer quero vê-lo à minha frente»; «onde eu estiver, não estarei eu». Eis os diferentes graus de resposta que brota quase instintivamente do interior do ofendido.

Por vezes a resposta reclamada vai mais longe, quando a reacção pela ofensa exige retribuição em forma de vingança: «assim como ele me fez a mim, assim lhe hei-de fazer»; «cá se fazem, cá se pagam»; «responderei na mesma moeda». O próprio direito penal ainda utiliza esta ideia de retribuição, vingança ou castigo (por exemplo, no caso de privação da liberdade, mediante a prisão ou, pior ainda, no caso de pena de morte), embora modernamente tal objectivo esteja associado a outra ideia, a da recuperação e reinserção familiar e social do autor da ofensa qualificada como crime.

De qualquer modo, vistas assim as coisas, no âmbito ético de uma cultura puramente humana é muito difícil, por vezes mesmo impossível, assumir uma atitude de perdão, que requer discernimento, lucidez e moderação. É aqui que passa uma das fronteiras mais marcantes que distingue a cultura genuinamente cristã. Para os cristãos, o perdão continua a ser, por natureza, difícil. A ultrapassagem desta barreira resulta da fé em Jesus Cristo que, sendo Mestre em tudo, também é o Mestre do perdão.

Os Evangelhos relatam numerosos episódios em que Ele generosamente perdoou a pessoas que humanamente mereciam o opróbio e o desprezo. Quando uma vez lhe perguntaram quantas vezes se deveria perdoar as ofensas, se até sete vezes, respondeu, querendo exprimir simbolicamente a incondicionalidade do perdão, que se deveria perdoar até setenta vezes sete vezes. Por fim, deixou a maravilhosa síntese do Pai Nosso, oração que Ele próprio ensinou: «Pai, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido».