Quando se fala em culto da personalidade dos líderes políticos pensamos imediatamente em ditaduras ou em regimes de natureza autocrática, ainda que possam por vezes apresentar-se formalmente como democráticos, como será o caso actual da Venezuela. De facto, uma tal degenerescência da acção política e da sua liderança faz parte da essência desses regimes políticos, baseados naquilo que na Alemanha nacional socialista das décadas de 1930 e 1940 se chamou o führerprinzip.Por isso, podemos achar estranho que nos perguntemos se o culto da personalidade pode existir de facto em democracia, se é compatível com um regime genuinamente democrático, baseado na vontade popular e na pluralidade de opções. Uma reflexão desta natureza parece, aliás, vir de certo modo a propósito, num ano em que se comemora o centenário da implantação da República em Portugal, já que, como refere a história, o regime republicano funcionou com uma estranha mistura de estruturas e práticas democráticas com atitudes caracteristicamente ditatoriais.
A resposta que desde já se pode dar à questão é que, em si, uma tal prática política é de facto alheia ao princípio da democracia, de todo em todo inconciliável com um governo democrático. No entanto, ainda que pareça paradoxal, o culto da personalidade pode existir, em grau maior ou menor, dentro da democracia, nos casos em que o regime democrático se encontra de algum modo contaminado por elementos culturais e políticos espúrios, que provoquem o desvirtuamento e a adulteração dos princípios fundamentais que regem uma democracia, baseada na igualdade dos cidadãos, alguns dos quais recebem um mandato popular, sempre temporário, para exercerem o poder.
Na actual vida política portuguesa parece haver alguns sintomas indiciadores de que a ideia do culto da personalidade se infiltrou insidiosamente nalgumas modalidades da prática política. Basta observar certos comportamentos, algumas atitudes e determinados discursos de agentes políticos e de meios de comunicação social, em que não é difícil encontrar manifestações, ainda que inconscientes, do «princípio do chefe».
Basta referir, por exemplo: a) o enfoque, excessivo e desproporcionado, nas pessoas dos líderes partidários e do primeiro-ministro, em detrimento da acção colectiva dos partidos e do governo, b) a colagem a essas lideranças de determinadas expressões, como «chefe», «comandante», «homem do leme» e semelhantes; c) as manifestações de temor reverencial, bem como as atitudes excessivamente laudatórias ou mesmo de subserviência; d) as frequentes e desproporcionadas intervenções do primeiro-ministro, enquadradas em discursos e comunicações «ad hoc», em eventos sem relevo para o efeito; e) o aparecimento de práticas e de tiques de oratória que fazem avultar uma certa ideia messiânica de exercício do poder.
As próprias eleições legislativas, que visam apenas escolher directamente os deputados da Assembleia da República, tendem a transformar-se em eleições «directas» do primeiro-ministro, como se fosse esse o objectivo principal do sufrágio, em detrimento da escolha dos «mandatários do povo», que são assim transformados numa espécie de marionetas de um referendo personalizado. De resto, os candidatos a deputados não se apresentam por si, mas são, de uma maneira ou de outra, escolhidos pelo «chefe», ou seja, pelo presidente ou secretário-geral do partido.