segunda-feira, 19 de julho de 2010

FUNERAIS E PRÁTICAS SOCIAIS

Todos nós já passámos certamente pela experiência de participar em encontros, em igrejas ou capelas funerárias, em que genericamente se visa, segundo a expressão corrente, velar familiares ou amigos falecidos. Para alguns tratar-se-á apenas de um hábito social rotineiro, o de lhe prestar homenagem formal e puramente humana e realizar assim uma despedida material (ver a pessoa falecida pela última vez). Para outros, tratar-se-á de algo mais do que isso, pois estará em causa também orar a Deus pela sobrevivência espiritual da pessoa desaparecida, na convicção de que apenas o corpo ali presente está destinado à destruição.

Seja qual for a motivação pessoal de cada um, qualquer delas faz apelo a atitudes de contenção e respeito, expressas no recolhimento e, quanto possível, no silêncio, que é, nestas situações, uma forma digna de prestar aquela homenagem. Em vez disso, no entanto, o que as práticas sociais nos revelam é tão surpreendente quanto pungente. Assistimos, nesses encontros, a conversas, por vezes prolongadas, nem sempre reservadas na voz, sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo sobre os assuntos mais frívolos e insignificantes, de qualquer forma inadequados ao momento. Por vezes, até se contam histórias engraçadas, se cochicham segredos sobre a vida dos outros ou se combinam encontros e até negócios, à revelia de qualquer sincera homenagem ao falecido que ali se encontra.

Afinal, os que não têm fé e para os quais a vida do falecido terminou definitivamente, sem deixar rasto, tudo não passa de uma homenagem protocolar, imposta pelas convenções sociais, uma vez que já está tudo acabado. Porém, para os que têm fé, abre-se uma oportunidade enorme de fecunda actividade espiritual. Com efeito, se o falecido continua vivo espiritualmente, é possível dirigirmo-nos a ele com a nossa mente, tal como podemos fazer em relação a Deus, que está sempre presente, cujos juízos são imprescrutáveis, e a quem podemos pedir confiadamente o descanso eterno do familiar ou amigo desaparecido do número dos vivos na terra.