domingo, 11 de julho de 2010

A DITADURA DO RELATIVISMO

Estamos a avançar para uma ditadura de relativismo, que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos. Ser adulto não significa apenas seguir as modas, mas algo de mais profundo. Muitos de nós ainda nos lembramos certamente destas palavras, proferidas pelo Cardeal Ratzinger, em Abril de 2005, durante a missa «Pro eligendo Romano Pontifice», que antecedeu a realização do Conclave, de onde veio a sair como Papa Bento XVI.

Pela simples observação do nosso quotidiano podemos facilmente comprovar a veracidade desta asserção. De facto, sentimo-nos com frequência envolvidos por uma cultura e uma prática, segundo as quais tudo é mais ou menos bom, tudo é mais ou menos certo, logo, tudo é mais ou menos aceitável, mas também mais ou menos provisório. Ou seja, não há verdadeiramente ideias ou valores a que nos possamos agarrar confiadamente, de modo seguro, tal como a âncora protege o barco do mar agitado.

Mas pior do que ter a percepção dessa envolvência é verificar que há uma eficaz, embora subtil, pressão cultural e social para que todos alinhem por essa perspectiva, porque é moda, porque a maioria assim pensa ou assim faz, porque está de acordo com os tempos actuais, porque de outro modo é agir como não alinhado, quase como um estranho na comunidade. É essa pressão que muitas vezes se transforma em verdadeira ditadura, quando deixa de haver reacção (por medo, incapacidade, conveniência ou oportunismo) e esta é substituída pela indiferença e pelo silêncio. Esta passividade e apatia levam a uma «padronização forçada» de atitudes e de comportamentos, que é a característica fundamental de todas as ditaduras.

Esta reflexão ocorreu-me a propósito de dois acontecimentos muito recentes, que têm tido considerável repercussão mediática e se podem considerar um verdadeiro teste sobre o elevado grau de influência da cultura relativista na nossa sociedade. Também nestas situações prevaleceu, em geral, a indiferença e o silêncio, como se a anormalidade de qualquer dos dois acontecimentos não justificasse e exigisse adequadas tomadas de posição.

Um destes casos tem que ver com o anúncio público, muito badalado, de ter nascido um filho do futebolista Cristiano Ronaldo, alegadamente gerado algures no estrangeiro segundo o processo de utilização de uma «barriga de aluguer», que não é reconhecido pela ordem jurídica portuguesa. Assim, a inocente criança, por força da manipulação dos adultos, vai ser obrigada a carregar o ónus de ser filho de mãe incógnita e está condenada a ser artificialmente órfã de mãe, como se esta não tivesse importância nenhuma na vida e na educação da criança. Ou seja, tudo é relativo, até a própria mãe.

O outro caso prende-se com a ideia de que há um mínimo de decência e de respeito que deve comandar a vida humana. Como se sabe, a edição portuguesa da revista erótica Playboy inseriu uma estranha, mesmo absurda, reportagem em que, a propósito de homenagear o falecido escritor José Saramago, inseriu uma série de fotos em que alguém a fazer de Jesus Cristo se apresenta em várias atitudes com jovens mulheres abundantemente despidas. O acontecimento incomodou mesmo a direcção central (norte-americana) da revista, que referiu desconhecer aqueles conteúdos pois, de outro modo, não teria permitido semelhante publicação. No entanto, perante o silêncio generalizado a que se assistiu, passou a mensagem de que é tudo relativo, até a própria decência e o mais elementar respeito.